segunda-feira, 14 de março de 2011

Especial Cura pela Fé II - Reportagem

12 Horas com João

Texto: Eliana Fonseca

Fotos: Nélio Rodrigues

A Viver Brasil acompanhou um grupo de Romeiros até Abadiânia (GO) para ver de perto o trabalho do médium João de Deus, conhecido internacionalmente pelas curas espirituais.

À procura de um milagre, a senhora de cabelos grisalhos e roupas brancas, aparentando pouco mais de 60 anos, prepara-se para a cirurgia. Primeiro, ela indica, com uma das mãos, o olho esquerdo como o motivo de sua consulta. A ajudante, espécie de enfermeira auxiliar, informa que a cirurgia será no olho direito. Ela manifesta que está confusa com a indicação. Mais uma vez a moça reitera que é o outro olho, o são, que de­ve ser operado. Ela pare­ce entender a não-lógica. Quando a cirurgia é iniciada, um gemido baixo, quase imperceptível, entrega o que pode ser pequeno desconforto ou quem sabe reza, quando um instrumento cortante raspa o canto do olho e também a retina. Não há sangue e uma pequena quantidade de secreção é retirada. “Está operada”, sentencia uma voz.
A instrumentação é cirúrgica: há bisturi, tesoura, algodão, agulha, álcool e faca pequena, semelhante a um canivete, que destoa dos outros objetos. Não estamos em nenhuma clínica oftalmológica ou hospital. Não há médicos, tampouco anes­tesia. Tudo acontece no salão principal da Casa de Dom Inácio, complexo de 12 mil m2. A senhora operada de enfermidade no globo ocular é apenas uma das centenas de pessoas que estão em Abadiânia, cidade goiana a 115 km de Brasília. 

É uma multidão formada por pessoas de branco, que espera pacientemente pelo atendimento feito por João Teixeira de Farias, conhecido internacionalmente como João de Deus, um senhor de 67 anos. Ele, que já foi garimpeiro e alfaiate, há mais de 40 anos é médium: recebe pessoas de todo o mundo à procura 8 de cura para cânceres, cardiopatias, doenças neurológicas, degenerativas, ortopédicas ou as que nem sequer têm diagnóstico. Ninguém sai da casa sem ser atendido. E o médium não cobra nada por isso.
 Olegas Orlovas: dois documentários com o médium e prepara terceiro Por: Nélio Rodrigues

Durante três dias a cada semana, das 8h às 17h, João deixa de ser João. Explica-se: o homem empresta seu corpo para mais de 30 entidades espirituais e faz cirurgias visíveis e invisíveis. No mundo dos espíritas, a lógica não é a convencional. As cirurgias acompanham esse conceito. A raspagem no olho é indicada para várias doenças, assim como a intervenção com uma tesoura introjetada quase inteiramente pelo nariz.  João opera, prescreve, orienta. Mas, se qualquer um dos pacientes se encontrar com ele no dia seguinte, fora daquele ambiente, não adianta pedir detalhes. Ele não tem qualquer consciência do que executa. Na linguagem espírita é o que chamam de médium inconsciente. “Ele serve de instrumento ao mundo dos espíritos e muitas vezes não se lembra de nada do que aconteceu”, explica o diretor da Federação Espírita Brasileira, Geraldo Cam­petti. Chico Lobo, ex-prefeito da cidade e voluntário atual da casa, tenta esclarecer o paradoxo entre o médium e o homem. “São as entidades que operam. O João tem horror a sangue e des­maiaria se tivesse de fazer uma cirurgia”, diz antes de nos levar ao médium.
O casal de portugueses, da Ilha da Madeira, Maria Lígia e Serafim
Por: Nélio Rodrigues.

É preciso autorização dupla: primeiro temos que pedir a João, ainda não incorporado, para iniciarmos a reportagem. Depois, o pedido é feito à entidade espiritual. Encontramos com os dois em menos de 30 minutos. O primeiro é homem comum, com passos curtos, fala mansa. Também usa roupas brancas – no espiritismo, a cor proporciona melhores energias. Ele surge sem alarde na sala simples, que tem como principal mobília um jogo de sofás e, numa mesa pequena, uma bandeja com várias frutas. Sentado num sofá menor, João inicia a conversa curta e se anima com o fato de sermos de Minas Gerais, seu estado natal. É natural de Januária. É o próprio médium quem explica: quando não está incorporado, é um cidadão comum que gosta de ficar em casa com a família, lidar com atividades rurais e de bom bate-papo com amigos. A incorporação precisa de um ambiente e há todo trabalho de equipe para que isso aconteça. Fora desse ambiente, nada acontece.
João teve sua primeira incorporação ainda na adolescência e, desde então, na conta de sua equi­pe, já são mais de 10 milhões de pessoas atendidas. Quando não está em Aba­diânia, pode estar em Canela (RS) ou em viagens ao exterior. Já teve documentário mostrado pela Dis­co­very Channel e por outras redes televisivas, mesmo assim, diz já ter sofrido perseguição. “No Brasil, isso acontece não só em relação ao espiritismo. Por mais que queiram ne­gar, existe preconceito”, diz. Ainda na sala, antes da incorporação, João decreta: a reportagem está autorizada.
Frequentadores oram enquanto esperam por atendimento do médium 
Por: Nélio Rodrigues

Em poucos minutos, em outro ambiente, ele se transforma em Au­gusto de Almeida, o espírito de um médico com voz firme e autoritária. Também pode incorporar Oswaldo Cruz, dr. Fritz, dom Iná­cio de Loyola, Bezerra de Menezes. A fila para atendimento traz pessoas de diferentes países. É possível encontrar lituano, português, húngaro, alemão, norte-americano. As religiões também são as mais diversas, mas há predominância de católicos e espíritas. Sen­tado numa cadeira com encosto alto, o médium é surpreendente. “Filho, vou te receitar um remédio, mas é preciso que você pare com as drogas”, diz a um rapaz estrangeiro que precisa de intérprete para entender o que João fala.

 Operação nos olhos é indicada para cura de várias doenças 
Por: Nélio Rodrigues.

Pequenas ou grandes doenças, todos querem uma solução. Alguns acreditam mais na cura, outros só acompanham, de longe. É o caso do médico Benedito de Lacerda, 58, oftalmologista goiano que foi à cida­de para a consulta de sua mulher, a dentista Maria de Fátima Fi­gueiredo, 52, com suspeita de  tumor no intestino. Lacerda, que é agnóstico, mede bem as palavras para falar no que acredita. “A medi­cina, atualmente, valoriza a do­ença e não o doente”, explica. Para ele, João de Deus faz o contrário. Mas, a cura, na opinião do oftalmologista, viria do próprio doente. “Não acredito em milagres. Há ca­sos excepcionais e os pronto-socorros têm inúmeras histórias. Quando uma pessoa está doente, ela precisa de fé para equilibrar sua saúde”, diz.
 Emilia Rippel e Ulrich Volz: viagem para os que não podem pagar  Por: Nélio Rodrigues

Maria de Fátima é católica. Em novembro do ano passado, seu médico pediu exame de colonoscopia – que detecta câncer. Ela sentia que havia alguma coisa errada com o seu organismo. “O médium me falou que eu precisaria de uma cirurgia urgente”, conta. Des­de então, a dentista ainda não fez o exame, não passou por um médico para saber se havia câncer, se ele foi curado ou se ainda está lá. É a terceira vez que está em Abadiânia. “Sinto que estou melhor. Já não conseguia con­trolar as fezes, tinha artrose e outras coisinhas. Melhorei”, diz. 

Para todas as pessoas, João receita um ou vários frascos de comprimidos à base de passiflora. O custo sai a 10 reais o frasco. O diferencial, segundo os ajudantes do médium, é que cada um deles é energizado pelas entidades espirituais da casa. Para esse remédio, paga quem pode. Antes, explica o administrador da casa e atual secretário de finanças da prefeitura, Hamilton Pereira, o médium receitava espécie de garrafa­da, uma mis­celânea com diversas plantas. “Mas o pessoal da vigilância sanitária implicou e chamamos os pesquisadores da Uni­versidade Fede­ral de Goiás, que nos deram consultoria para desenvolver a fórmula do remédio e vêm a cada 15 dias para ver se está tudo certo”, ressalta Pereira.
 Ovídio Ferracioli e sua mulher Maria Luiza: alta do médium
 Por: Nélio Rodrigues

Quem recebe cura volta pa­ra contar, mesmo anos depois do ocorrido. Palestras são ministradas a to­do momento e casos são contatos para novatos e veteranos da ca­sa. É o que acontece com o homem que fala, no salão da recepção, sobre a cura de tumor no cérebro. O locutor Luiz Carlos Nunes, 60, de São Leopoldo (RS), afirma que estava desenganado pelos médicos em 1996. A princípio, não veio à casa. Mandou foto. “A entidade falou que eu deveria vir a Abadiânia para uma cirurgia.” João abriu a cabeça de Luiz e retirou, nas palavras do ex-doente, o câncer. “Mas o tratamento espiritual não é de um dia para o outro. É preciso perseverança”, orienta.
 Wellington faz excursões duas vezes por mês para Abadiânia 
Por: Nélio Rodrigues.

E talvez nem mesmo a persistência seja sinônimo de cura. O empresário e engenheiro químico paulista Taufik Daud, 49, perdeu a esposa há pouco mais de três meses para um câncer. Chegou a levá-la aos Estados Unidos, no Texas, para exames e novo diagnóstico. Em 2006, ficou sabendo de Abadiânia por meio de amigos. Desde então, che­­gou a ir dez vezes à cidade go­iana para que a mulher fosse atendida por João de Deus. “Para algumas pessoas, há um limite e isso não quer dizer que deu errado. Pelo contrário, minha esposa passou por vários tratamentos, várias quimioterapias e, vir até aqui, ajudou muito”, diz.
 Benedito Lacerda acompanha sua mulher Maria de Fátima
 Por: Nélio Rodrigues

A morte, que pode significar o fim para alguns, é o início da mudança para outros. O guia do ônibus de Minas Gerais Wellington Vi­nícius da Silva, 43, o Welinho, conta que há dois anos zombava quando ouvia qualquer menção a João de Deus. E ele ouvia muito, já que o pai Walter Vicente da Silva era 8 presença constante em Abadiânia. Ele também era guia de romeiros e médium da casa. A mudança aconteceu em 2008 quando, por causa da doença do pai, começou a levar romeiros para Abadiânia. Em julho do ano passado, João de Deus anunciou para Welinho que seu pai iria morrer em breve. Menos de um mês depois, o pai estava morto. Desde então, o guia leva, duas vezes por mês, romeiros para Abadiânia. Tam­bém ajuda no atendimento da casa. “Senti um chamado e agora estou na minha missão.”
A viagem feita por Welinho de Belo Horizonte à cidade goiana dura 12 horas e a distância é de 800 km. Abadiânia é uma cidade que vive em função de João de Deus há pelo menos 30 anos. São 13 mil habitantes e média de 9 mil visitantes por mês. Mas, não procurem pessoas da cidade na fila para o tratamento com o médium. A secretária municipal de Saúde, Miraide Moreira, é convicta ao afirmar que os abadianenses não procuram o santo de casa. “Nos primeiros anos, as pessoas até procuravam pela casa, mas agora isso não acontece”, diz.

A ampla maioria de visitantes da Casa de Dom Inácio é de outros estados e países. O coordenador do local, Hamilton Pereira, já contabilizou em cinco anos de trabalho visitantes de 22 países. Para atender a essa demanda, que passa de 100 mil pessoas por ano, são mais de 40 pousadas e hotéis e mais de 30 táxis. “Abadiânia é altamente dependente de João de Deus. Ele coloca a cidade no cenário nacional e internacional, mas nossa arrecadação é ainda tímida. A solução seria o aumento das taxas cobradas de hotéis e de IPTU ”, afirma o secretário municipal de Turismo, José Augusto Paralovo.
 Sala dos milagres: dezenas de muletas deixadas pra trás
Por: Nélio Rodrigues.

Se por um lado é turismo rápido – a maioria fica um dia – Abadiânia não pode reclamar da fidelidade das pessoas que chegam à cidade à procura de João de Deus. Quem gosta, volta mais de uma vez. A portuguesa da Ilha da Madeira Maria Lígia Carvalho Mendonça Diogo Vieira, 58, ouviu falar no médium há dois anos quando descobriu que precisava de transplante de fígado. Já voltou quatro vezes a Abadiânia. Não por causa da cirurgia na medicina convencional, que foi realizada, mas pela rejeição ao novo órgão, ocorrida um mês depois do transplante. “Vim porque corria o risco de uma nova cirurgia, mas dois anos se passaram e estou com o primeiro fígado transplantado. Estou bem, graças a Deus, porque sem fé não conseguimos nada”, conclui.

Maria Lígia está acompanhada do marido, o aposentado Serafim da Silva Vieira, 63, que tem válvula mitral por causa de  problema cardíaco. Inicialmente, Vieira veio acompanhando a mulher, agora faz questão de voltar ao Brasil pelo menos duas vezes por ano para ver João de Deus. “Foi um amigo de São Paulo que nos falou sobre ele. Quando o encontrei pela primeira vez, fiquei bastante comovido. Estou bem e isso é bom sinal.”

Na fila para o atendimento, a húngara Emilia Rippel, 56, dentista holística que trabalha com desintoxicação de pacientes por metais pesados, é saudada por João de Deus. Ela e o amigo alemão, o também dentista Ulrich Volz, financiam, com dinheiro próprio, a vinda de pessoas da Alemanha para Abadiânia.8 “Trazemos quem não pode pagar pela vinda à Abadiânia”, diz Emilia.
Outro estrangeiro, o lituano Olegas Orlovas, 28, também espera para falar com João de Deus. Psicólogo, está pela 7ª vez em Abadiânia graças ao sucesso do tratamento de uma tia, que se encontrou com o médium em uma de suas viagens internacionais. Estava em Nova Zelândia, com câncer em grau 4 e foi curada. Ficou tão impressionado que produziu, nos últimos dois anos, dois documentários sobre João de Deus. “Eles foram exibidos na Rússia e na Li­tuânia”, conta. Agora, está preparando documentário maior em que acompanhará quatro pessoas da Lituânia para tratamento no Brasil. “Minha ideia é sempre ouvir médicos e especialistas para saber sobre a evolução dos tratamentos feitos com João de Deus”, diz.

Além dos estrangeiros, ônibus com pessoas de toda parte do Brasil lotam os pátios das pousadas de Abadiânia. Há semanas em que pelo menos seis ônibus saem de Minas rumo à cidade. No dia da reportagem, havia somente o ônibus de Welinho, com 26 romeiros. O casal Ovídio Ferracioli de Oliveira, 71, aposentado, e a professora Maria Luiza Pereira de Oliveira, 64, de Di­vi­nó­polis, integravam a excursão. Ela teve nódulo no seio e caroço na axila. Ficou conhecendo o trabalho de João de Deus por meio de uma amiga. Conta que foi curada e, desde então, passou a frequentar a Casa de Dom Inácio. Já Ovídio pediu, há dois meses, para se encontrar com João de Deus por causa de problema cardíaco. Durante o atendimento, ouviu do médium o que todas as pessoas gostariam de escutar na consulta: “Está curado, estou te dando alta. Procure o seu médico para confirmar sua cura.” Chorou copiosamente. “Foi emoção demais, segui a dieta certinha e tomei todos os remédios”, conta.

Curiosamente, como muitos pensariam, Ovídio não correu ao médico para confirmar o diagnóstico de João. Cerca de 20 dias depois da viagem, a repórter ligou para o casal e ouviu de Maria Luiza que a consulta nem havia sido marcada. Mas estavam convictos da cura. “Ovídio está muito bem: ele antes ficava muito cansado, agora mudou completamente.” Embora não seja possível medir a fé ou não na cura de cada visitante, o certo é que ano a ano aumenta o número de pessoas que visitam Abadiânia em busca de milagre.

Revista Viver - Reportagem - Especial Cura Pela Fé II

12 Horas com João

Por: Eliana Fonseca
Fotos: Nélio Rodrigues
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A CURA PELA FÉ - THE CURE THROUGH FAITH VOL 1 JOÃO DE DEUS - JOHN OF GOD




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sábado, 12 de março de 2011

Médium João de Deus - Cirurgias Espirituais

Irmãos planetários ,

A Casa de Dom Inácio recebeu a apresentadora da TV Bandeirantes  Marcia Goldshmidt, que gravou matéria para o seu programa que foi exibido dia 21 de setembro de 2010. Segue abaixo a matéria.

Programa Márcia - 21/09/2010 - Parte 1/2



Programa Márcia - 21/09/2010 - Parte 2/2



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terça-feira, 8 de março de 2011

JOÃO DE DEUS – O FENÔMENO QUE COLOCOU ABADIÂNIA NO MAPA


O médium João de Deus escolheu uma pequena cidadezinha do cerrado goiano para trabalhar depois de uma mensagem psicografada pelo médium Chico Xavier.
A pequena Abadiânia é cortada pela rodovia BR-060 e fica exatamente no meio do caminho entre Brasília e Goiânia. Apesar de os dois enormes letreiros no canteiro central da rodovia indicarem o nome da cidade, é bom ficar atento para não parar na vizinha Anápolis. O alerta vale, principalmente, para quem viaja de ônibus pela empresa Araguaína, que faz a linha Brasília-Anápolis. "Tem que avisar ao motorista que você vai descer em Abadiânia. Lá não tem rodoviária", avisa uma passageira. A cidade não chega a 13 mil habitantes e sequer tem hospital. Em caso de emergência, o socorro é mesmo em Anápolis, a 40 quilômetros de distância.

Mas é em Abadiânia que as pessoas, muitas vezes desenganadas por médicos, apelam ao que, talvez, seja o último fio de esperança: um tratamento espiritual com o médium João Teixeira de Faria, o João de Deus. O médium é conhecido mundo afora por realizar procedimentos cirúrgicos sem o uso de anestesia na Casa Dom Inácio de Loyola, fundada por ele em 1976 - local que foi construído por sugestão do médium Chico Xavier, depois de uma mensagem psicografada por ele, atribuída ao espírito de Bezerra de Menezes, famoso médium cearense do século XIX.

A reportagem da revista Star foi a Abadiânia com o objetivo de mostrar ao leitor quem é João de Deus e o que há de realismo nas intervenções feitas por ele na Casa Dom Inácio. Cético, a ideia inicial deste jornalista era narrar sem paixão o que fosse apurado por ele em Abadiânia. No entanto, por conta de uma formidável e espantosa experiência, sinto-me na obrigação de trocar a narrativa por um depoimento.

Cirurgia Espiritual nos olhos?
Logo no primeiro contato que tive com o médium João de Deus percebi que aconteceu comigo um fenômeno que pode ser chamado de cura espiritual. Sem que o médium tocasse em meus olhos, houve uma inexplicável melhora do pterígio – crescimento de tecido fibrovascular sobre as córneas – que acomete tanto meu olho esquerdo, quanto o direito. A doença me acompanhava há mais de 25 anos. Além da constante irritação que deixa os olhos avermelhados, o problema evoluía de forma gradativa e até poderia gerar complicações mais sérias no futuro. A solução, segundo o oftalmologista Ricardo Guimarães, a quem entrevistei na edição 94 da Star, seria um procedimento cirúrgico.
Antes mesmo de chegar à Casa Dom Inácio, numa ensolarada tarde de quinta-feira, notei vestígios da fama de João de Deus. Uma cura atribuída a ele pelo caribenho Aubin Yves foi eternizada com um depoimento escrito em um muro, em agradecimento a uma cura. Aubin tinha paralisia desde 2005 e necessitava de cadeiras de rodas para se locomover.

Dizer a verdade é a única exigência.
A autorização para registrar os trabalhos na Casa Dom Inácio foi concedida para o dia seguinte. Cheguei ao local antes das 7 horas. Mas havia uma condição para fazer a reportagem: "Peço, em nome de Jesus, que você ‘pregue’ o que sair do seu coração e da sua alma. Eu quero que você ‘ponha’ a verdade", exige João de Deus.
A casa onde o médium realiza seus trabalhos espirituais é ampla. A construção principal é divida em um grande salão e três salas menores. As paredes são pintadas de azul e branco. Imagens de Jesus Cristo, Nossa Senhora de Fátima, santo Inácio de Loyola, Madre Tereza de Calcutá e entidades incorporadas por João de Deus se destacam no ambiente. Um monitor de LCD, instalado na parede do salão, exibe imagens de cirurgias sem anestesia realizadas pelo médium incorporado. O mesmo salão é usado para cerimônias de casamento e batismo.


Na área externa da Casa Dom Inácio funcionam farmácia, administração, cantina, biblioteca e espaço para meditação, além de um estacionamento. A maioria das pessoas é estrangeira. A cor predominante das roupas é branca. Filas são organizadas, mas não seguem uma ordem lógica para primeira ou segunda consulta. O critério também não é a ordem de chegada, mas idosos, mulheres grávidas ou com crianças de colo, e pessoas de cadeiras de roda têm prioridade.

“Se você não se concentrar, não receberá nada”
Eu não cogitava fazer nenhuma consulta ao médium, em causa própria. Mas, para minha surpresa, sou convidado a entrar uma sala de energização. Acomodo-me em um banco de madeira, a uma pequena distância da cadeira de espaldar em que João de Deus sentaria para realizar suas consultas. Meu ceticismo não me deixa fechar os olhos. De repente, uma voz firme me adverte: "Se você não se concentrar, não receberá nada", era João de Deus que, em transe, passava vagarosamente à minha frente.

Com os olhos fechados, consigo não pensar em nada por alguns segundos. Uma leve sensação de coceira nos olhos começa a me incomodar. Depois fica insuportável, mas cessa. Os trabalhos na Casa Dom Inácio são interrompidos às 11h para o almoço. Uma sopa é oferecida gratuitamente e em seguida volto à pousada onde estava hospedado, a dois quarteirões da Casa Dom Inácio. 
Ao lavar o rosto, fico em estado de choque: o pterígio do meu olho direito fora reduzido pela metade.



INCRÍVEIS DEPOIMENTOS DE CURAS.
Às 14h, os trabalhos de João de Deus são retomados. Venço minha resistência inicial e submeto-me a uma consulta. "Você viu que limpei seus olhos?", diz João de Deus, incorporado por uma entidade. "Mas como você não está vestido com roupa adequada, não fiz a cirurgia. Volte com roupa apropriada, que eu faço a cirurgia (espiritual)".

Muitas experiências impressionantes de curas atribuídas às entidades que incorporam João de Deus são impressionantes. Um dos exemplos é da norte-americana Regina Willians, que se emociona ao lembrar os motivos que a levaram a Abadiânia. "Há doze anos tomei oito pílulas de uma droga para emagrecer chamada Fen-phen. Ela provocava morte em algumas pessoas. Causava hipertensão pulmonar primária, uma doença que ainda não tem cura. Através de amigos acabei aqui em Abadiânia. Eu estava vivendo graças a uma máquina que estava em meu rosto e forçava o ar em meus pulmões. Meus rins já tinham parado de funcionar e os médicos estavam tentando me manter confortável até meu coração parar de bater", revela.

Regina diz que os médicos não podiam mais ajudá-la. "Na noite em que cheguei, parei de respirar. Eles rezaram e eu respirei fundo algumas vezes e a entidade me fez uma cirurgia espiritual. No final da semana, todas as pessoas que estavam comigo foram embora, mas a entidade sugeriu que eu ficasse. Eu fiquei. E eles salvaram a minha vida. Dois ou três meses depois, não precisava mais do respirador, quase não precisava tomar mais medicações e meus rins começaram a funcionar novamente. Depois de dez anos de minha cura, ainda estou aqui, em Abadiânia. E estou viva".

O grego Anastasio Bakratsas também diz que se livrou problemas depois de uma cirurgia espiritual. "Já havia feito cirurgias pelas circunstâncias normais da medicina, mas não funcionaram em mim. Aqui, minha espiritualidade e minha crença em Deus ficaram mais fortes. Milagres acontecem aqui e é nossa crença que também suporta esses milagres. Todos somos especiais e temos que encontrar essa especialidade. Este lugar é milagroso", aposta.

Médium diz que quem Cura é Deus
Depois de sofrer duas vezes Acidente Vascular Cerebral (AVC), passar por três cirurgias no cérebro, perder ¼ do cérebro, 80% do pâncreas, o baço e a vesícula, o fazendeiro de Ituiutaba-MG, Dráuzio Borges Vieira, tinha tudo para ficar em estado vegetativo, mas se recuperou depois se tratar na Casa Dom Inácio. "Vim por curiosidade e acabei operado espiritualmente e fiz os meus tratamentos. Logo depois comecei a largar os remédios que eu tomava como Gardenal, Hidantal, Rivotril e Depakene. Não tenho mais problema algum e não fiquei aleijado. Cheguei aqui em 1986. Faço tratamento com medicina convencional e continuo vindo à Casa. Outra coisa impressionante é que a minha esposa não podia ter filhos, e hoje, nós temos dois maravilhosos".

João de Deus não admite para si o poder da cura. "Eu não sou responsável por nada. Foi Deus quem me deu esta missão", prega. E, a cada semana, mais e mais pessoas o procuram, em busca de alívio. João de Deus é um dos últimos sopros de esperança do paranaense Édson Euclides Ferreira, de 30 anos, que ficou paraplégico há dez anos, depois de um acidente de trabalho. Enquanto aguardava por sua primeira consulta, ele, assentado em uma cadeira de rodas, apertava com força um pequeno terço. "Fiquei sabendo do João de Deus por reportagem que passou na televisão. Acabei me interessando. Estou com muita esperança. Tenho fé que vou fazer uma cirurgia aqui".

A paraguaia Cintia Ovellar, coincidentemente, havia assistido à mesma reportagem, na cidade de Curuguati. Não mediu esforços para atravessar a fronteira e seguir até Abadiânia com a irmã Teresita, que sofre de câncer e clama por um milagre. "Minha irmã está com câncer hepático. Sofre há quatro meses. Estou com muita fé que ela pode melhorar. Vai dar tudo certo para ela", diz.

Estrangeiros descobrem Abadiânia depois de cura de Shirley MacLAIanE.

O grande interesse de estrangeiros por Abadiânia transformou a economia da cidade. Os donos de pousadas, hotéis, restaurantes, taxistas, agências de viagem, lan houses, lojas de roupas, souvenires e minerais, serviços de massagens, salões de beleza e até pessoas que alugam bicicletas ganham com a fama de João de Deus. "Eu não tenho nenhuma participação nos lucros destes negócios. Eu ‘mexo’ com fazenda. Sou obrigado a trabalhar para a minha sobrevivência", posiciona-se o médium.



Doentes desenganados por médicos veem tratamento espiritual como último fio de esperança. À esquerda, a paraguaia Cintia Ovellar expressa sua fé em uma tatuagem nas costas. Ela acredita que sua irmã pode ser curada de câncer hepático. Em uma das salas da Casa Dom Inácio, pessoas com dificuldade para locomover deixam muletas e outros objetos, após a cura.


Mas a invasão estrangeira na cidade aborrece alguns fiéis brasileiros, que não aceitam o tratamento prioritário para os gringos em Abadiânia. "Parece que eu não estou no Brasil. Na pousada em que estou hospedada, 80% são americanos. A minha sorte é que eu também fui confundida com americana. A gente quer comer alguma coisa em algum lugar e se assusta, pois os cardápios são em inglês ou alemão e não tem nada em português. Acho que os estrangeiros deveriam se adaptar ao nosso país, e não nós a eles", reclama a cabeleireira capixaba Iracema Binow, que saiu em uma caravana de Vitória-ES, para representar o marido que havia sido submetido a uma cirurgia espiritual. "Estava pensando em ficar mais uma semana, mas não há vagas disponíveis nas pousadas.


Todas as reservas são para os estrangeiros. Acho que eles têm preferência porque pagam em dólar e euro", desabafa. 


"Eu estava vivendo graças a uma máquina que fixada em meu rosto, forçava o ar em meus pulmões. Meus rins já tinham parado de funcionar e os médicos estavam tentando me manter confortável até meu coração parar de bater"


Norte-americana Regina Willians
Essa verdadeira Torre de Babel em que se transformou Abadiânia começou em 1991, quando o médium recebeu a visita da atriz norte-americana Shirley MacLaine, a quem teria curado um tumor no abdômen. A notícia correu o mundo e João de Deus acabou por despertar a curiosidade da rede americana de televisão ABC e até virou personagem de um documentário do canal Discovery. No Brasil, o médium já havia sido descoberto pelo produtor do programa de tema espírita "Terceira Visão", que era exibido pela TV Bandeirantes, nos anos 1980.
Em média, o preço de uma diária em uma pousada em Abadiânia é R$ 60. Não tem luxo. Geralmente o hóspede tem direito ao café da manhã, almoço e jantar. Anápolis tem boas opções para hospedagem, mas, para quem não estiver de carro próprio, a opção é pegar um táxi e desembolsar cerca de R$ 70.

Admito ter feito cirurgia espiritual em Abadiânia.
Na semana seguinte à primeira visita, voltei à Casa Dom Inácio sem avisar à administração. Como imaginava, não consegui vaga em nenhuma pousada de Abadiânia e me hospedei em Anápolis. Na manhã de quinta-feira, visitei novamente João de Deus, devidamente vestido com camiseta, moletom e chinelos brancos, comprados no dia anterior, em Belo Horizonte.

Já passavam das 8h quando o médium veio me atender. As centenas de pessoas que o esperavam na fila recebiam de suas mãos um pequeno papel com um rabisco indecifrável. Era uma receita de passiflora (cápsulas com pó de maracujá), comum a todos. Cada pote custa R$10 na farmácia da Casa Dom Inácio. A administração doa alguns potes àqueles que não têm condições de comprar o medicamento. João de Deus me recebe e pede para que eu volte à tarde. Ainda na fila, por volta das 15h, volto a sentir irritação nos olhos. O incômodo é menos intenso do que aquele que havia sentido na semana anterior. Na minha vez de ser atendido, João de Deus sorri e me indica uma sala: "É para fazer o trabalho", diz.
São menos de cinco minutos com os olhos fechados. Imediatamente após sair da área mediúnica, corro para um espelho. Não percebo nada. Fico um pouco frustrado. Na volta a Belo Horizonte, percebo que há uma regressão da doença do olho esquerdo. Não tenho mais dúvidas. Admito ter sido submetido a uma cirurgia espiritual, em Abadiânia.



REVISTA ESTAR
Março de 2011 / Ano VII | Edição  101
Por:  Ronildo Jesus -

Artigo.: João de Deus - O fenômeno que colocou Abadiânia no Mapa

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quinta-feira, 3 de março de 2011

O HOMEM DE ABADIANIA



Por.: Pablo Nogueira (texto)
E André Schneider (fotos)

Quem é João de Deus, o Médium Brasileiro que atrai legiões de fiéis de todo o Mundo com suas Supostas Curas Espirituais.

Incorporado por uma entidade, o médium João de Deus prepara-se para encerrar os trabalhos de mais um dia.


É um belo fim de tarde de sexta-feira e estou fazendo hora em um jardim. Ao meu redor, espalham-se cerca de 70 pessoas de todas as idades, e estamos aguardando que o homem que dirige esse lugar apareça para nos dizer adeus.

Sem ter muito o que fazer, começo a escutar a conversa de quem está por perto. Identifico vários franco-canadenses, um casal alemão com duas filhinhas, uma menina com aspecto de indiana falando francês com sotaque (de onde será?), duas senhoras norte-americanas, outras duas da Austrália e um grande grupo proferindo algo totalmente incompreensível, que depois descubro ser húngaro. Quase todos vestem branco, e o papo segue animado.

O clima é aquela mistura de alegria com nostalgia antecipada, característico do fim de qualquer viagem bem-sucedida. Amanhã todos estarão voando de volta a seus países, após uma estadia de pelo menos duas semanas na pequena Abadiânia, no interior de Goiás. 

Uma porta se abre. Dela sai um homem corpulento, na faixa dos 60 anos e igualmente vestido de branco, que caminha devagar. Está visivelmente cansado e tem motivos para isso, pois conversou com mais de 2.400 pessoas nos últimos três dias. Ele é cercado pela legião de estrangeiros, ávidos por tirar uma foto ao seu lado. Não há empurra-empurra, mas há competição, e o ritmo é de linha de montagem. Durante 20 minutos, ele posa para os flashes e faz questão de mostrar-se sorridente. Quem consegue sua foto fica satisfeito, pois cruzou continentes para encontrar o homem pessoalmente, ainda que por poucos instantes. 

Esse personagem é João Teixeira de Faria, 66 anos, mais conhecido como João de Deus. Ele é aquilo que os espíritas chamam de "médium de cura", alguém que, supostamente sob a influência de seres espirituais, identifica males, prescreve tratamentos e realiza cirurgias. A cena se desenrolou nos jardins da Casa de Dom Inácio, instituição criada por ele para oferecer tratamentos com claro viés espírita. 

A mediunidade de João é o coração da Casa de Dom Inácio. Ele tem 1,80 m, voz grave e personalidade forte. Fala com sotaque do interior de Goiás, com o jeito simples de quem teve de interromper os estudos na segunda série para trabalhar. Suas palavras são assertivas. "Minha missão é servir de instrumento às entidades de luz. Quem cura é Deus e as entidades, eu nunca curei ninguém", diz. O tom mistura didatismo e paciência. Afinal, a explicação é repetida desde os anos 1950, quando João passou a ser procurado por doentes em busca de alívio e cura. "Não sou um pregador. Estou procurando mostrar às pessoas o que é a verdade, o que é o amor. Mas é difícil alguém chegar a Deus pelo amor. A maioria chega pela dor. Se você ficar cego um dia, vai buscar a Deus", diz.


Logo após a consulta com João de Deus, a romena Simona Constantinescu analisa o encontro: "Senti um afeto muito grande. Nunca tive experiências espíritas, mas estou deixando acontecer".

Mesmo atribuindo ao além o mérito pelos atendimentos que lhe tornaram mundialmente conhecido, João defende o próprio trabalho. Nas paredes de seu escritório estão dependurados cerca de 50 títulos e diplomas. Eles revelam que João foi homenageado pelo Primeiro Batalhão de Fuzileiros Navais do Rio de Janeiro, que é "Amigo do Exército", "Amigo da Marinha", cidadão honorário de Teresópolis... Ali também está um grosso arquivo com depoimentos, registrados em cartório, de pessoas que alegam terem sido curadas. "Eles fazem isso porque querem, eu não teria dinheiro para pagar tantas despesas de cartório. Você não faz um registro se não tiver obtido um benefício, não é?", questiona. 

João menciona o grande número de famosos e poderosos que, em momentos difíceis, foram a Abadiânia em busca de auxílio. Cita alguns nomes que vão de ministros do Supremo Tribunal Federal a personalidades do showbiz.

"Criei a Casa de Dom Inácio para fazer o bem. As pessoas que estão aqui vieram porque quiseram, eu não convido ninguém. Se continuam vindo, é porque percebem que o trabalho é sério. Você pode enganar alguém por um mês ou dois, mas por 50 anos é difícil", diz. 

João tinha nove anos quando começou sua jornada. Caçula de cinco irmãos, residia com a família em Itapaci, no interior de Goiás. Certa vez, em visita com a mãe a um povoado vizinho, pediu a ela que regressassem assim que possível, pois uma tempestade logo cairia. Como nada indicasse chuva, ela não deu crédito, mas concordou em procurar abrigo na casa de um conhecido. Pouco depois, uma forte chuva derrubou ou danificou um quarto das construções do lugar. 

Menino, caiu no mundo em busca de sustento. Aos 14 anos, foi parar em Campo Grande (MS). João conta que, após passar dias sem comer, estava à beira de um rio na periferia da cidade quando viu uma luz e ouviu uma voz lhe dizendo que fosse a um centro espírita da cidade. "Quando cheguei, perguntaram meu nome e disseram que estavam esperando por mim. Me chamaram para sentar à mesa e dirigir os trabalhos. Eu respondi que não entendia nada daquilo e que estava mesmo é com fome." Terminou aquiescendo e sentando-se à mesa, onde estavam os dirigentes da sessão espírita. Um deles entoou uma prece. "Fechei os olhos e percebi que estava caindo no sono." Quando acordou, foi informado de que havia incorporado uma entidade e realizado 50 cirurgias e atendimentos. 

Ficou alguns meses em Campo Grande, mas logo começou a viajar. Durante oito anos, seu trabalho foi movido pelo boca a boca. "Famílias vinham até mim e depois me convidavam para ir às suas cidades", diz. Não se vinculou formalmente a nenhum grupo religioso e seguiu um modelo diferente do espírita tradicional, no qual os tratamentos são feitos apenas nos centros. "Eu acordava de manhã e via aquela multidão parada na minha porta. O que ia fazer? Começava a atender", lembra. Cotegipe (BA), Colinas (TO), Imperatriz (MA) e Wanderlei (BA) são algumas das cidades onde viveu. Ao mesmo tempo, ganhava a vida como pedreiro, garimpeiro e alfaiate.

Heather Cumming foi a Abadiânia em busca de elevação espiritual. Hoje, é dona de uma pousada na cidade.
No rastro do grande público, vinham as autoridades e os médicos. Já então ele dizia a quem o procurava que não interrompesse qualquer tratamento alopático e que seguisse as prescrições médicas. Nem por isso deixou de ser várias vezes detido sob a acusação de exercício ilegal da medicina e charlatanismo. Não chegou a ficar muito tempo preso, mas não gosta de falar do que aconteceu nas delegacias. "Sofri violências na prisão. Mas continuei na minha missão", limita-se a comentar, com os olhos marejados e a voz embargada, antes de mudar de assunto. 
Gradativamente, aproximou-se de algumas autoridades. Após o golpe de 1964, começou a trabalhar como alfaiate para oficiais do exército. "Ali, encontrei pessoas que me deram apoio", diz. Continuou perambulando por várias cidades, acompanhando militares que eram transferidos. Assim João livrou-se das prisões e das perseguições. 

Sua fase de viajante terminou em 1976, quando chegou a Abadiânia. Na época a cidade era governada por Hamilton Pereira, atual diretor administrativo da Casa de Dom Inácio. "Apoiei a vinda de João porque pensava que ela poderia beneficiar economicamente a comunidade", diz Pereira.

À época, Abadiânia era uma cidade com pouco mais de 10 mil moradores.
Seus jovens trabalhavam em Goiânia, Anápolis ou Brasília e só retornavam ao município para dormir. A cidade tinha dois táxis e quase nenhuma infra-estrutura hoteleira. Hoje, com 13 mil habitantes, possui 26 pousadas com 1.500 leitos e uma frota de 37 táxis. São cerca de 500 empregos gerados pela Casa de Dom Inácio. Isso significa que ela tem um peso econômico maior do que a prefeitura. "Fico preocupado com o que pode acontecer quando João não estiver mais aqui", diz Pereira. A estrutura que Abadiânia oferece para receber seus visitantes é desproporcional ao seu tamanho. Nos seis quarteirões da via que liga a BR-060 à casa, encontra-se uma profusão de restaurantes, cafés com internet, lojas de lembranças e agências turísticas. O viajante pode optar entre contratar os serviços de um massagista especializado em reflexologia ou agendar uma excursão para as cachoeiras de Pirenópolis. Os funcionários dos hotéis e do comércio dominam o básico do inglês, língua encontrada nos cardápios dos restaurantes e nos letreiros das lojas.

O professor inglês Errol Roget tentava curar seu joelho pela segunda vez.
Curioso é que, embora João de Deus atraia multidões há décadas, o turismo só desabrochou recentemente. E bem rápido. Heather Cumming, paulista filha de escoceses, começou a freqüentar a região em 1998. Hoje, ela é dona de uma pousada que fica a quatro quarteirões da casa. "Até 2002, da entrada da minha pousada eu enxergava os portões da casa, a área ao redor era um pasto", diz. Agora tudo está tomado. Por trás desse crescimento estão dólares e euros. Heather diz que os primeiros a chegar ao local em grande número foram os australianos, em meados dos anos 1990. "Depois vieram os neo-zelandeses, os europeus e, por último, os norte-americanos", afirma. De fato, sinto-me como em um cofee-break na ONU, tantas são as nacionalidades e etnias representadas ali. 

Hoje é possível encontrar vários sites estrangeiros com endereços como "johnofgodtours", "jeandedieu" ou "casadonignacio". Neles, visitantes convertidos em guias oferecem pacotes de viagens, em geral com 15 dias de duração. Os estrangeiros já respondem por metade das cerca de 800 pessoas em busca de uma consulta com o médium por dia. E o fenômeno é de mão dupla: na última década, João esteve uma vez na Grécia, uma na Nova Zelândia, três na Alemanha e quatro nos EUA. 

O médium vê com naturalidade o interesse estrangeiro. "É gente que lê, que estuda. Estão vindo pela fé. E eu não prego nenhuma religião." E diz que não há nenhuma diferença entre realizar atendimentos aqui ou no exterior. "Para mim é a mesma coisa. Se pagarem os funcionários da casa por uma semana, vou aonde me chamarem", diz João. 

Abadiânia em nada se assemelha aos demais pólos turísticos do País. A pequena cidade goiana respira sobriedade. Quase todos usam branco. Aqui e ali vêem-se cadeirantes e pessoas que caminham com bengalas. Mas também há crianças acompanhadas de seus pais, o que gera uma atmosfera "família".

Nos restaurantes, a música calma, em volume baixo, favorece a intimidade. É comum ver duplas sentadas às mesas conversando concentradamente, como se estivessem relatando a história de suas vidas. A água-de-coco é a bebida mais popular, e é praticamente impossível encontrar bebidas alcoólicas nas proximidades da Casa de Dom Inácio. 

"Nasci a poucos quilômetros daqui. Estou na minha terra, o interior de Goiás", diz João. Mas o fato é que a opção por Abadiânia não foi tão planejada. "Primeiro me instalei em Anápolis porque era amigo do prefeito", recorda o médium. Sua chegada, porém, despertou a pronta oposição da comunidade médica. "Ele então me pediu que me mudasse para Abadiânia." A história quase mudou de rumo em 1993, quando, escaldado por uma briga, o médium quis ir embora de Goiás. Recebeu um bilhete do amigo Chico Xavier, na verdade uma mensagem psicografada, assinada por Bezerra de Menezes, considerado o pai do espiritismo institucionalizado no Brasil. Ela dizia que Abadiânia era "o abençoado local de sua iluminada missão e de sua paz".

"Chico era o papa do espiritismo. Um pedido dele era uma ordem", diz. João realiza uma cirurgia visível. A maioria delas é requisitada por estrangeiros. 

Rodar por Abadiânia a bordo da sua minivan Zafira prata é como estar ao lado de um político popular. As pessoas mantêm uma distância respeitosa. Mas, quando ele as chama para conversar, se aproximam sorridentes, apertam sua mão, abraçam. Ele chama aos mais jovens de "filho" e "filha". Sabe os nomes de muitos e conhece as histórias de alguns. "E o seu irmão, como está?", pergunta a um vendedor de espetinhos. Um rapaz evangélico, mulato e miúdo, na casa dos 20 anos faz questão de mostrar seu apreço. "Vou sempre à casa. Tenho uma foto do seu João dentro da Bíblia", diz. Parte da popularidade de João deriva dos trabalhos assistenciais que ele promove na cidade. A lista é extensa. Ele mantém uma filial da casa, situada em outro bairro, distribui diariamente cerca de mil pratos de sopa à população carente, paga o ensino superior para pelo menos uma dúzia de pessoas. Dois anos atrás, comprou quatro motos para a polícia. Em outubro passado, distribuiu 2 mil brinquedos no Dia das Crianças. E por aí vai. 

Segundo João, o dinheiro para as obras de caridade vem da administração de quatro fazendas. "Trabalho lá três dias por semana e outros três na casa. Às terças, descanso", diz. Todos os tratamentos na casa são gratuitos. As entidades podem prescrever o uso de um medicamento de ervas produzido ali mesmo, que custa R$ 10 o pote. Mas quem alega não ter dinheiro pode levá-lo gratuitamente. 

Com área de 12 mil m2, a Casa de Dom Inácio é um conjunto de pequenas construções, quase todas pintadas de azul celeste. Seu coração é a chamada "área mediúnica", um conjunto de cinco salas onde se desenvolve o atendimento. É lá, entre quarta e sexta, que João de Deus atende todos que o procuram. 

Exatamente às 8h, as 200 cadeiras do saguão estão tomadas por uma multidão vestida de branco. O lugar é decorado com imagens de diversos líderes religiosos e seitas, de Jesus Cristo e Santo Inácio a Joana de Ângelis (ligada ao espiritismo), passando pelo budismo tibetano e sete gurus indianos. Há também um choque de estilos. Vejo um rapaz do leste europeu, usando cabelos compridos, com flores brancas nas mãos, grandes óculos escuros e camisa Empório Armani. Ele espera ser atendido ao lado de uma típica senhora do interior do Brasil. Ela veste saia de algodão e havaianas. 

Abaixo da superfície colorida correm as águas escuras do sofrimento. Basta ver os que caminham com bengalas ou estão restritos a cadeiras de rodas, ou ainda aqueles que ostentam a calvície típica de quem encarou a quimioterapia. E aqueles cujos males não saltam aos olhos? Por trás de cada visitante pode haver uma história muito triste. 

É preciso, então, grande discrição. "A gente não pergunta por qual motivo a pessoa veio aqui", diz Sebastião de Lima, 55, o Tiãozinho, que desde 1972 acompanha João como voluntário. "A pessoa diz às entidades o que busca, a fim de ser tratada. Para nós, ela só conta o que quiser, e se quiser", afirma. 

O americano Craig Kolb medita em frente ao triângulo-símbolo da Casa de Dom Inácio.
Não há um ritual rígido ordenando as atividades da casa. Descalço e vestido de branco, João recita uma prece e, já em transe, senta-se em uma cadeira de espaldar alto para dar início aos atendimentos. "Sou um médium inconsciente, não lembro de nada do que aconteceu durante a incorporação", diz. Ele afirma que não gosta de ver sangue, nem de assistir aos registros em vídeo das cirurgias. 
João não sabe dizer quantas entidades incorpora. Estima-se que sejam de 20 a 30. Os voluntários não sabem sequer os nomes de muitas, já que elas nem sempre se identificam. Mas aprenderam a distinguir as mais freqüentes pelos seus trejeitos. Dom Inácio manca e é bastante amoroso. Dr. Augusto de Almeida tem um jeito mais autoritário. Mas ninguém os confunde com João.

Para um olhar destreinado como o meu, com pouco tempo de observação, fica difícil enxergar personalidades diferentes. 

O momento do encontro com a entidade é um dos pontos altos da viagem a Abadiânia. É a hora de pedir o que se precisa ou averiguar o estado de um tratamento iniciado anteriormente. Muitos na fila estão descalços. Pessoas em cadeira de rodas parecem ter prioridade. Os estrangeiros muitas vezes estão acompanhados pelos seus guias, que traduzem seus pedidos à entidade, e a sua respectiva resposta. Os que estão sós podem contar com os voluntários da casa, que falam inglês e um pouco de francês. Embora a sala esteja lotada, a conversa é íntima e afetiva. A entidade sorri, pergunta como o consulente está, olha direto em seus olhos. Muitos se ajoelham. Há quem se debruce sobre o médium, como se procurasse mais privacidade. Muitos o chamam de "pai". 

A maioria dos pedidos diz respeito a problemas de saúde. Há quem traga fotos de doentes, para serem tratados à distância. Com uma caneta, o médium faz um sinal atrás das imagens. Algumas são colocadas numa caixa, outras são devolvidas. Uma mulher loira, aparentando 45 anos, mostra uma foto e diz que aquela pessoa havia sido curada sem deixar a Finlândia. Com a voz séria, a entidade diz: "Esse é o poder de Deus. Eu sou o Dr. Augusto de Almeida".

Em outros momentos, a ação é mais direta, e a entidade faz as chamadas "cirurgias visíveis". São intervenções com facas, bisturis e tesouras, popularizadas por José Arigó nos anos 1970. Na Casa de Dom Inácio elas não são freqüentes e, em sua maioria, são pedidas pelos próprios consulentes, quase sempre os estrangeiros. Assisti a cinco dessas intervenções em três dias e pude observar que, embora houvesse pequenos sangramentos em alguns casos, ninguém se queixou de dor, mesmo quando a entidade passou uma faca sobre o olho de um homem sem o uso de anestésicos. Não localizei essas pessoas após as intervenções, para que relatassem mais detidamente os eventuais benefícios obtidos.


Muletas e bengalas deixadas por aqueles que se consideram curados por João de Deus.
Quando pergunto o que faz com que alguns sejam curados e outros não, João diz que, "se houvesse um lugar onde todos ficassem curados, seria uma maravilha. Os hospitais fechavam. Não tem mágica, cada um recebe de acordo com o que merece. E quem cura é Deus, não sou eu".

Há ainda quem peça auxílio para trabalhar, para passar no vestibular, para ser aprovado em concursos, para encontrar pessoas desaparecidas, para engravidar. "Pode deixar que eu vou te ajudar com a sua profissão", diz a entidade a uma adolescente sorridente. Um casal de 20 e poucos anos, com aspecto de classe média alta, traz uma criança de colo e agradece a entidade. Ela segura o menino e sorri. Os atendimentos são interrompidos por volta do meio-dia e recomeçam às 14h. Tudo acaba por volta das 17h.

Filho da contracultura, o fotógrafo americano Craig Kolb, 61 anos, é veterano de dez viagens à Índia. A fim de tratar de um problema no coração de sua mulher, Judith, pegou a "ponte aérea" Califórnia-Goiás. "Uma amiga brasileira nos recomendou a Casa de Dom Inácio. Ficamos interessados e descobrimos que nossos vizinhos haviam feito uma visita um ano antes."

Vieram ao Brasil em abril por duas semanas, pagando US$ 3.000 cada um. Voltaram em outubro. "Estávamos com muita vontade de retornar. O quadro da minha esposa é estável. E eu, apesar de não ter nenhum problema, fui indicado a fazer uma cirurgia espiritual. Agora me sinto mais leve", diz. 

O inglês Errol Roget, 55 anos, tem o olhar compenetrado do professor de matemática que é. Veio de Londres em março para tratar de uma dor crônica no joelho, causada por uma lesão na cartilagem. "Fiz uma cirurgia espiritual, mas não segui as indicações do tratamento. Voltei para fazer tudo certo. Meu joelho melhorou 60%, mas há algo mais acontecendo. Minha espiritualidade se fortalece. E isso é mais importante do que o meu joelho", diz. 

A idéia de que o valor da visita vai além da cura física é algo presente na mente de muitos estrangeiros. É o caso da nova-iorquina Eva, uma loira de 50 anos presumíveis que trabalha como agente de viagens e pediu para não ter seu sobrenome citado. Ela conta que esteve na casa pela primeira vez em maio de 2007, movida pelo depoimento de uma amiga que melhorara de um câncer.

"Eu sofria com dores nos ouvidos, menopausa, ansiedade e desequilíbrios nos neurotransmissores", conta. Passou por duas cirurgias espirituais. Quando voltou aos EUA, experimentou uma sensação de transformação. Além do bem-estar físico, diz que ficou mais intuitiva e sensível, e superou problemas pessoais. 

Há ainda outros motivos para os estrangeiros lotarem a casa. Um bom exemplo é a história da jornalista romena Simona Constantinescu, que visitava a casa pela primeira vez em outubro. Ano passado, uma amiga dela veio a Abadiânia para encontrar-se com João. "Ela não tinha problemas de saúde. Veio apenas para entender mais sobre a vida e a morte", diz Simona.

A amiga mostrou uma foto da jornalista a João, para pedir "boas vibrações".
O médium disse que Simona deveria vir ao Brasil. "Me convenci que seria uma experiência enriquecedora e juntei o dinheiro durante um ano." Quando ficou frente a frente com João de Deus, Simona ouviu que é "filha da casa", um termo que sugere uma afinidade com o trabalho que acontece ali. A jornalista caiu em prantos. "Não sei que efeito isso vai ter em mim. Nunca tive experiências espíritas, mas estou deixando as coisas acontecerem", diz. 

A atitude de João quanto ao tema religião é complexa. "Sou católico", responde ele, quando pergunto diretamente. No dia seguinte, define-se como "um espiritualista, que acredita em Deus, na fé, no amor". No mesmo dia, revela que vai "à Assembléia de Deus. Vou aonde eu me sentir bem, para ouvir a palavra de Deus". E argumenta: "Todas as religiões são boas. Maus são alguns dirigentes". Sua atitude ecumênica ficou clara quando me levou até Céu de Abadia, uma igreja do Santo Daime que funciona perto de Abadiânia. "O seu João nos apoiou desde que chegamos aqui", diz Wilson Francisco, padrinho do local. "Nos anos 1970 eu já dizia que o chá não era droga e fui preso e perseguido pelas autoridades por causa disso", lembra João. 

A Casa de Dom Inácio reafirma o poder curativo da fé. Por isso, é natural que muitos dos que a visitam questionem suas próprias crenças. "Fui criada como católica, mas me afastei da religião. Quando voltei para casa, voltei à Igreja", diz Eva. "Muitos se reaproximam da religião que já tinham depois da experiência", concorda Heather. 

Para os estrangeiros, a estadia em Abadiânia é a porta de entrada para o espiritismo, tal como se consolidou no Brasil. "Já li três livros sobre o espiritismo brasileiro, que comprei aqui mesmo na casa. Pretendo aprender português para me aprofundar", diz o americano Kolb. Já a romena Simona preferiu se preparar para a viagem lendo 20 livros sobre espiritismo em espanhol num período de seis meses. 

João diz que o espiritismo é "uma filosofia" e que se aproximou dela "pelo conhecimento". Gosta de citar seu encontro com nomes como Gerônimo Candinho e Chico Xavier. Também narra como os familiares de Eurípedes Barsanulfo deram-lhe uma xícara que pertencera ao prócer do movimento espírita. Em dado momento, é capaz de se definir como kardecista. Mas volta atrás. João faz questão de frisar que, durante sua trajetória, não atendeu em centros espíritas. Aí pode estar um dos principais elementos do seu trabalho. Ao afastar-se de uma religião organizada, pode receber quem talvez se recusasse a entrar num centro espírita. 

O fato é que Abadiânia está se tornando um ponto de peregrinação internacional. Há outros lugares no mundo onde se pode observar fenômenos parecidos. A pequena Puttaparthi, no sul da Índia, recebe anualmente milhares de visitantes, vindos de todas as partes do mundo, em busca de uma bênção do guru Satia Sai Baba. E até hoje a cidade de Puna, também na Índia, continua recebendo caminhões de adeptos dos ensinamentos do guru Osho, que morreu há quase 20 anos. A pequena cidade de Goiás, porém, entrou na rota de pessoas de todo tipo de crença, pois não está formalmente vinculada a nenhuma. E a única semelhança entre João de Deus e um guru é o fato de que ele repete, incansavelmente, um mesmo mantra: "Quem cura é Deus e os bons espíritos. Eu nunca curei ninguém".

Vá Fundo - Para ler
"João de Deus", Heather Cumming e Karen Leffler. 
Editora Pensamento. 2008 
"Curas Espirituais", Ismar Garcia.
AB Editora. 2007.

Por.: Pablo Nogueira (texto)
E André Schneider (fotos)
Edição 209 – Dezembro/2008 – Matéria: “A nova era do espiritismo
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