segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

ELES SÃO ESPÍRITAS


A tradição espírita no Brasil se renova com a adesão de jovens celebridades como Fábio Assunção, Caio Blat e Scheila Carvalho.

Das 300 pessoas que presenciaram o casamento do ator Fábio Assunção, 30 anos, com a produtora Priscila Borgonovi, 23, no Jockey Clube de São Paulo, sábado 20, uma delas foi escolhida pelo casal para discursar sobre a importância da família, da fidelidade e do amor. Eliana Luiz dos Santos, 47 anos, presidente e fundadora da Casa Oração Fé e Amor, centro espírita freqüentado pelo ator da Globo, foi a médium da cerimônia que celebrou a união do casal. Mãe da cantora Ana Ariel, esposa do ator Caio Blat, Eliana leu a passagem “lei do amor” de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. Depois, leu o terceiro capítulo dos “Cantares de Salomão”, da Bíblia Sagrada, e em seguida pediu a proteção dos anjos para o casal. Ana Ariel cantou “Haja o que houver”, do grupo português Madredeus e Ave Maria. Emocionado, Fábio chorou. “Pedimos proteção aos anjos e aos espíritos. Para que seja abençoado essa nova caminhada de cada um ao lado de uma nova pessoa”, diz Eliana.

Priscila Borgovoni e Fábio Assunção casaram-se numa cerimônia espírita no sábado 20 em São Paulo. Na celebração, uma médium abençoou o casal, que não trocou um beijo no altar.


Fábio e Priscila não se beijaram ao final da cerimônia. Também não fizeram juramentos, como em casamentos católicos. Espíritas, abraçaram-se e passaram a cumprimentar “as pessoas carinhosas que irão acompanhar a vida do casal”, que no catolicismo seriam chamadas de padrinhos. Entre eles, a atriz Adriana Esteves e o ator Marco Ricca. “Não há casamento espírita”, explica Evandro Noleto Bezerra, secretário da Federação Espírita Brasileira. “Alguns casais costumam se casar no civil e depois promovem uma exposição sobre valores como amor e fidelidade.”

O casal é mais um exemplo da popularidade crescente do espiritismo no Brasil, que atrai sobretudo a classe média e a juventude. E cada vez mais atrai jovens celebridades. Entre aqueles que se declaram espíritas, 46% têm até 29 anos. De acordo com o antropólogo Emerson Giumbelli, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2000 indica que 2% da população brasileira é espírita. Oficialmente, é um contingente de 4 milhões de pessoas, bem superior ao 1,6 milhão de 1991, mas ainda distante da população católica (83%) e dos evangélicos (12%). Especialistas, porém, acreditam que os espíritas formam um rebanho maior do que revelam os números, se incluir os não declarados. Para a antropóloga Céres de Carvalho Medina, da PUC de São Paulo, autora da tese Antropologia e Religião, o número de espíritas no Brasil está próximo a 12 milhões.

Lógica do espiritismo Assim como Fábio Assunção e Priscila Borgonovi, Caio Blat, 21 anos, e Ana Ariel, 19, também celebraram sua união seguindo os preceitos espíritas. Representante da terceira geração de uma família kardecista, Ana aproximou Caio da doutrina na qual foi criada. “Fui arrebatado pela lógica do espiritismo porque ele mostra a grandiosidade da Justiça Divina. É o que melhor explica de onde viemos e para onde vamos”, diz ele. Ana Ariel já gravou dois discos com músicas espíritas e cantou na festa de 90 anos de Chico Xavier, o médium mais famoso do Brasil, em 2000, em São Paulo. Às sextas-feiras, o casal participa de encontros realizados na Casa do Espírito Amigo, centro mantido há 12 anos em Campinas pela mãe de Ana, Eliana dos Santos.

A doutrina espírita existe desde 1857, quando O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, foi publicado em Paris. Kardec era um educador que trabalhava no Ministério da Educação, na França. “Ele não era espírita e não acreditava em nada, mas de tanto ler nos jornais notícias de manifestações de espíritos, passou a estudar o assunto”, conta a antropóloga Céres Medina, da PUC-SP. Kardec fez uma pesquisa detalhada em torno de um médium com todos os cuidados para evitar fraudes. “Ele fez mais de mil perguntas e comparou as respostas com as obtidas por outros pesquisadores da época. As respostas, coincidentes, estão em O Livro dos Espíritos.” A doutrina baseia-se nos seguintes preceitos: acreditar na existência do espírito, na reencarnação e na possibilidade de comunicação entre mortos e vivos. Para os espíritas, diferente dos católicos, Jesus Cristo foi um homem comum. Mas que, após passar por várias encarnações, chegou à última como um espírito elevado. “O espírita não pede ajuda aos santos, mas aos espíritos evoluídos”, explica Céres.

Scheila Carvalho e a mãe

A dançarina, que se chamaria Sandra, ganhou o nome de Scheila em homenagem a um espírito invocado por sua mãe, Eunice, na hora do parto, que tinha complicações, mas terminou bem. Scheila iniciou-se na doutrina aos dez anos e guarda como momento mais marcante de sua fé um encontro com seu pai, já morto, há cinco anos.


‘‘Abracei meu pai, em seguida senti um tremor e acordei chorando. Não foi um sonho, foi um reencontro’’ Scheila Carvalho, cujo pai morreu há cinco anos, narra experiência vivida quando completou 23 anos

Foi o que aconteceu no nascimento da dançarina Scheila Carvalho, 28 anos, do grupo É o Tchan!. Sua mãe, Eunice Ladeira, ia batizá-la de Sandra. Na hora do parto, sofrendo complicações, pensou numa entidade que chamava de irmã Sheila. “Fui cuspida”, conta a dançarina. Eunice confirma: “Ela estava virada ao contrário, fiz um trabalho espiritual e ela saiu na hora”. Aos 10 anos, Scheila passou a freqüentar centros espíritas em Juiz de Fora, onde nasceu. Leu vários livros sobre o kardecismo e devorou a coleção da médium Zibia Gaspareto.

A história que mais mexeu com a espiritualidade de Scheila aconteceu um mês depois de seu pai morrer. Ela fazia 23 anos e a data só foi celebrada com uma reunião em família. Na hora de partir o bolo, sua mãe disse: “Só faltava seu pai aqui para te dar os parabéns”. Na mesma noite, Scheila sonhou que dormia em seu quarto e, ao levantar para ir ao banheiro, encontrou o pai, Waltencyr. “Quem disse que eu ia me esquecer do seu aniversário?”, disse-lhe, no sonho. “E ele estava de braços abertos”, conta Scheila, emocionada. “Nos abraçamos e em seguida senti um tremor e acordei chorando. Acredito que aquilo não foi só um sonho, foi um reencontro.”

A cirurgia espírita de Paula - Ela crê no espiritismo há 20 anos
Maria Paula Gonçalves, a Magic Paula, 40 anos, ex-jogadora de basquete, descobriu a religião espírita na dor. “Fui procurar o espiritismo no desespero, há 20 anos. Estava com um problema muito sério no joelho esquerdo, mas não queria operar porque sabia de muito atletas que fizeram cirurgia e jamais voltaram a jogar normalmente.” Seguindo sugestão de uma colega fisioterapeuta, Paula foi até um santuário em Leme (SP) e fez uma cirurgia espírita. “Não conhecia nada de espiritismo, achei que fosse ver pessoas caindo no chão, estava com medo”, diz. Mas, na hora, encontrou tranqüilidade, luzes apagadas e teve seu joelho curado. “Sentia as dores físicas da recuperação, não podia nem dirigir”, comenta. Os médicos com quem se consultou, ela conta, disseram que Paula tinha “problemas na cabeça” por estar se submetendo àquilo. 


Ao invés de freqüentar centros espíritas, atualmente Paula prefere fazer suas sessões de relaxamento e oração sozinha. “As pessoas procuram essa religião porque é o momento de achar o teu ser, coisa que não acontece com a igreja católica que nos coloca sermões que não têm nada a ver com a nossa vida”, opina. Para recarregar as energias e concentrar-se em sua própria espiritualidade, Paula costuma ficar sozinha no escuro, ouvindo uma música tranqüila e mentalizando coisas boas.

A ex-jogadora de basquete Maria Paula Gonçalves, a Magic Paula, também viveu uma experiência marcante. Crê ter tido um reencontro com o pai, morto por um câncer há quatro anos. “Fazia uma sessão de reiki (energização com as mãos), quando a pessoa disse que estava se sentindo mal e precisava sair da sala. Ao voltar, a senhora trouxe em mãos uma carta do meu pai, psicografada por ela”, conta Paula, com lágrimas nos olhos. A mulher, segundo Paula, não conhecia ninguém da família dela, muito menos as particularidades do seu pai descritas na carta. “Sofri muito pelo meu ateísmo. Quanto tempo eu perdi por não conhecer Deus!”, dizia o pai, que era ateu. Na carta, também pedia desculpas por não ter afagado a filha o bastante. “A carta é ele. Ele era uma pessoa fechada. E aquilo veio até mim sem eu procurar, foi uma comunicação. Se estivessem escritas coisas como ‘aqui é lindo, cheio de flores’, eu não iria acreditar”, diz ela.

O jogador de vôlei Alexandre Samuel, o Tande, 32 anos, espírita desde a infância, perdeu a mãe no início deste mês e encontrou conforto na religião. “Nada é por acaso, tudo tem sua hora”, diz ele. Casado com a atriz Lizandra Souto e pai de Yasmim, de dois anos e meio, Tande freqüenta com toda a família um centro espírita às quintas-feiras. Em casa, repete um hábito que seu pai, o médico Alexandre Ramos Samuel, introduziu quando Tande tinha sete anos.

Sempre que a agenda permite, o atleta reúne a esposa e a filha e senta com elas ao redor de uma mesa com uma jarra com água fluidificada (energizada pelos espíritos) ao centro, ao lado do livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. Após darem às mãos, pedem proteção, lêem e debatem uma passagem do livro. “A doutrina espírita ensina que já é hora das pessoas procurarem evoluir para algo além dos objetivos materiais”, diz ele.

Elba Ramalho
Militante do espiritismo, a cantora freqüenta o Lar de Frei Luís, no Rio, e se iniciou na leitura da doutrina há dez anos. “Tenho procurado viver bem para morrer bem. Quem sabe um dia eu não acordo num outro mundo olhando para um anjo bem bonito?”


Estima-se que haja cerca de oito mil centros espíritas no País.

Espírita militante A cantora Elba Ramalho, 50 anos, foi criada dentro dos preceitos católicos, mas sua curiosidade a levou a pesquisar outras “formas de se chegar a Deus”. Ela diz que encontrou coerência na doutrina de Allan Kardec. Há 10 anos, ela se iniciou na literatura espírita e leu mais de 20 livros de Chico Xavier, que ela conheceu há três anos e que psicografa a entidade Emmanuel. Estudar a doutrina, aliás, faz parte da religião. Essa é uma das explicações para o espiritismo ser popular na classe média: dados de 1995 indicam que 32% dos espíritas completaram o ensino médio e 25% cursaram universidade. “A discussão espírita exige um mínimo de senso crítico e sutileza”, diz o antropólogo Emerson Giumbelli.

Militante do espiritismo, Elba é freqüentadora assídua do Educandário Social Lar de Frei Luiz, em Jacarepaguá, no Rio. Lá aprendeu que a morte é uma ponte para a eternidade. Isso, ela garante, melhorou sua qualidade de vida. “Tenho procurado viver bem para morrer bem. Quem sabe um dia eu não acordo num outro mundo olhando para um anjo bem bonito?”, pergunta a cantora. Fundadora do selo Ramax, Elba, além de lançar bandas de rock e forró, também apostou no segmento espírita, com músicas de grupos que pregam paz e união.

Caio Blat e Ana Ariel
Eles se casaram numa cerimônia espírita no ano passado (acima). Ele passou a seguir a doutrina de Allan Kardec por influência de Ana, que é filha de uma médium. “Fui arrebatado pela lógica do espiritismo”, diz ele. Antes o ator flertou com religiões orientais.

No Brasil, há cerca de quatro milhões de espíritas, ou 2% da população. Desse total, 46% têm até 29 anos. Os católicos são 83% dos brasileiros.

Existem cerca de oito mil centros de espiritismo no País, segundo estimativas da Federação Espírita Brasileira. Lá, os seguidores da religião se reúnem, rezam, ouvem ensinamentos e dão passe. O passe, segundo Evantro Noleto Bezerra, 2º secretário da Federação, é uma transfusão de energia e funciona como uma medicação homeopática. “O espírita tem de acreditar que a energia irá reequilibrar seu organismo e acabar com suas angústias”, diz ele. É importante, também, marcar as diferenças em relação à umbanda, outra religião que crê em reencarnação. Diferentemente dos espíritas, os fiéis da umbanda acreditam em rituais. Na opinião de Giumbelli, a falta de informação é o maior empecilho para o crescimento do espiritismo. “As pessoas ainda têm uma visão estereotipada sobre o assunto, associam a doutrina a casas mal assombradas e fantasmas.”

Paulo e Nicette Bruno

O casal conheceu a religião espírita há 40 anos, com a morte de um tio de Nicette. A religião, que eles transmitiram aos três filhos, os ajudou a superar a perda. “O Espiritismo me trouxe um comportamento coerente”, diz o ator.

O veterano casal de atores Paulo e Nicette Bruno abraçou o espiritismo há 40 anos, após a morte de um tio da atriz. “Procuramos um centro para lidar melhor com esta perda”, conta Paulo. Segundo ele, os ensinamentos, transmitidos aos três filhos, deram-lhe mais, uma receita de vida. “A busca do equilíbrio dentro das incoerências do mundo.” Foi também na dor que a atriz Ana Rosa, 59 anos, teve seu primeiro contato com o espiritismo. Em 1962, a atriz perdeu seu primeiro filho, Maurício, de leucemia, com um ano de idade. Na época, a tristeza e a revolta pela perda prematura foram amenizadas por um presente do diretor Augusto César Vanucci, que lhe deu o Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. “O livro respondeu um pouco as questões que fazia na época. Não entendia por que aquilo tinha acontecido comigo, mas de certa forma me acalmei com a leitura”, lembra Ana.

Ana Rosa
Com a ajuda do espiritismo, a atriz superou a perda de dois filhos. Ela também fez duas novelas com temática espírita e, por causa disso, conheceu o médium Chico Xavier. “Muita gente vê a morte como punição, mas não é. Senão todo mundo estaria pagando por alguma coisa, porque todos vamos morrer um dia”, diz ela

Por falta de tempo, a atriz não se aprofundou nos estudos da doutrina até 1976, quando uma série de coincidências a aproximaram do espiritismo. Primeiro, fez o papel de uma médium na primeira versão da novela A Viagem, de Ivani Ribeiro, exibida pela extinta TV Tupi. Em conseqüência disso, visitou Chico Xavier em Uberaba. Um ano depois, atuou em O Profeta, outra novela de Ivani Ribeiro que abordou o tema. Na ocasião, Carlos Augusto Strazzer, que protagonizava a novela, indicou o Lar da Mãe Mariana, em São Paulo, que ela passou a freqüentar com o marido. Morando hoje no Rio, Ana vai a reuniões semanais na Seara Fraterna, e estuda a filosofia criada por Kardec. “Me propus a transformar meus pontos negativos. Hoje não só estou menos ansiosa, como procuro não criticar ou falar mal dos outros, mas ajudar no que puder”, diz.

Em 1995, Ana Rosa passou por outra prova. Ana Luíza, sua filha então com 18 anos, morreu atropelada. Dessa vez, a dor que a fez procurar uma terapia e se esconder para não chorar na frente dos filhos não veio acompanhada da revolta. “Muita gente vê a morte como punição, mas não é. Senão todo mundo estaria pagando por alguma coisa, porque todos vamos morrer um dia”, afirma. Um mês após o acidente, a atriz conta que sentiu a presença da filha durante uma sessão espírita. No mesmo dia, Ana viu o mural de fotos da filha em casa com uma sensação diferente da perda. “Vi que ainda tinha uma responsabilidade como mãe, porque minha filha estava viva em algum lugar, e não deveria me entregar à dor.” Mãe de outros seis filhos, quatro adotivos, Ana Rosa planeja agora levar para o cinema a peça Violetas na Janela – a história que a amiga Vera Lúcia Marinzeck psicografou de uma sobrinha que morreu aos 19 anos e que fez sucesso no Brasil entre 1997 e 2000, e em que Ana atuou e dirigiu. “É uma mensagem positiva, um relato de como é a vida no plano espiritual”, diz a atriz. O que provavelmente atrairá mais jovens para o espiritismo.


O jogador em oração com a mulher Lizandra Souto e a filha Yasmim:“Nada é por acaso”. diz Tande

Tande aceitou a morte da mãe. 

No início do mês, Alexandre Samuel, o Tande, 32 anos, perdeu a mãe, Maise, vítima de um tumor no cérebro. Ao invés de entrar em desespero, o campeão de vôlei de quadra nos jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, encontrou consolo no espiritismo kardecista, que pratica desde a infância. “Acho que nada é por acaso e tudo tem a sua hora”, disse o resignado atleta. Ele conta que, mesmo desenganada, depois de ter sido operada pelo neurologista Paulo Niemeyer, a família apelou para cirurgias espíritas. Chegaram a chamar um médium amigo da família, que foi até o quarto onde ela estava internada, recebeu uma entidade e fez uma cirurgia espiritual. “Ele nos disse que ela desencarnaria, mas deixou o ambiente equilibrado para que a passagem acontecesse sem traumas”, diz o atleta.


Tande também acha curioso o fato que sua mãe, que havia ficado descrente durante o processo da doença, tenha mudado seu comportamento nos últimos dias de vida. “Ela ficou mais dócil e passou a ver entidades espirituais vagando pelo quarto”, afirmou. Embora esteja sofrendo, o jogador acredita que sua mãe está bem neste momento. “Baseado nos meus humildes conhecimentos, acho que ela está se reestabelecendo num dos hospitais que existem em outros planos”, diz Tande. Ele está lendo no momento o livro Cidade do Além, que explica para onde os espíritos vão após a morte do corpo físico.

Artigo.; ELES SÃO ESPÍRITAS
Edição 143 - 29/04/2002

Por.: Eduardo Minc, Juliana Lopes, Luis Edmundo Araújo e Rodrigo Cardoso


Imagem.: Do Próprio Artigo Revista

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A CAPA DE SANTO

Francisco Cândido Xavier

  

Desceu da Esfera Superior em que se demorava e nasceu entre as criaturas para ser carpinteiro.

Operário digno e leal, muita vez experimentou conflitos amargurosos, mas, fervoroso, apegava-se à proteção dos santos e terminou a primeira missão admiravelmente.

Tornou ao céu, jubiloso, e recebeu encargos de marinheiro.
Regressou à carne e trabalhou assíduo, em viagens inúmeras, espalhando benefícios em nome do Senhor.

Momentos houve em que a tempestade o defrontou ameaçador, mas o aprendiz, nas lides do mar, recorria aos Heróis Bem-Aventurados e entesourou forças para vencer.

Rematou o serviço de maneira louvável e voltou à Casa Celeste, de onde retornou ao mundo para ser copista.

Exercitaram-se, então, pacientemente, nos trabalhos de escrita, gravando luminosos ensinamentos dos sábios; e, quando a aflição ou o enigma lhe visitaram a alma, lembrava-se dos Benfeitores Consagrados e nunca permaneceu sem o alívio esperado.

Novamente restituído ao Domicílio do Alto, sempre louvado pela conduta irrepreensível, desceu aos círculos de luta comum para ser lavrador.

Serviu com inexprimível abnegação à gleba em que renascera e, se as dores lhe buscavam o coração ou o lar, suplicava os bons ofícios dos Advogados dos Pecadores e jamais ficou desamparado.

Depois de precioso descanso, ressurgiu no campo humano para exercitar-se no domínio das ciências e das artes.

Foi aluno de filosofia e encontrou numerosas tentações contra a fé espontânea que lhe sustentava a alma simples e estudiosa; todavia em todos os percalços do caminho, implorava a cooperação dos Grandes Instrutores da Perfeição, que haviam conquistado a láurea da santidade, nas mais diversas nações, e atravessaram ilesas, as provas difíceis.

Logo após, foi médico e surpreendeu padecimentos que nunca imaginara.

Afligiram-se milhares de vezes ante as agruras de muitos destinos lamentáveis; refugiou-se na paciência, pediu socorro dos Protetores da Humanidade e, com o patrocínio deles, venceu, mais uma vez.

Tamanha devoção adquiriu que não sabia mais trabalhar sem recurso imediato ao concurso dos Espíritos Glorificados na própria sublimação.

Para ela, semelhantes benfeitores seriam campeões da graça, privilegiados do Pai Supremo ou súdito favorecidos do Trono Eterno. E, por isso, prossegui trabalhando, agarrando-se-lhes à colaboração.

Foi alfaiate, escultor, poeta, músico, escritor, professor, administrador, condutor, legislador e sempre se retirou da Terra com distinção.

Vitorioso em tantos encargos foi chamado pelo Mestre, que lhe falou, conciso:

- Tens vencido em todas as provas que te confiei e, agora, podes escolher a própria tarefa.

O discípulo, embriagado de ventura, considerou sem detença:

- Senhor, tantas graças tenho recebido dos Benfeitores Divinos, que, doravante, desejaria ser um deles, junto da Humanidade...

- Pretenderias, porventura, ser um santo?- indagou o Celeste Instrutor, sorrindo.

- Sim... - confirmou o aprendiz extasiado.

O senhor, em tom grave, considerou:

- O fruto que alimenta deve estar suficientemente amadurecido... Até hoje, na forma de operário, de artista, de administrador e orientador, tens estado a meu serviço, junto dos homens, junto de mim.

Há muita diferença...

Mas, o interlocutor insistiu, humilde, e o mestre não lhe negou a concessão.

Renasceu, desse modo, muito esperançoso, e, aos vinte anos de corpo físico, recebeu do Alto o manto resplandecente da santidade.

Manifestaram-se nele dons sublimes.

Adivinhava, curava, esclarecia, consolava.

A inteligência, a intuição e a ternura nele eram diferentes e fascinantes.

E o povo, reconhecendo-lhe a condição, buscou-lhe, em massa, as bênçãos e diretrizes. Bons e maus, justos e injustos, ignorantes e instruídos, jovens e velhos, exigiram-lhe, sem consideração por suas necessidades naturais, a saúde, o tempo, a paz e a vida.

Na categoria de santo, não podia subtrair-se à luta, nem desesperar, e por mais que fosse rodeado de manjares e flores, por parte dos devotos e beneficiários reconhecidos, não podia comer, nem dormir, nem pensar, nem lavar-se. Devia dar, sem reclamação, as próprias forças, à maneira da vela, mantendo a chama por duas pontas.

Não valiam escusas, lágrimas, cansaço e serviço feito.

O povo exigia sempre.

Depois de dois anos de amargosa batalha espiritual, atormentado e desgostoso, dirigiu-se em preces ao Senhor e alegou que a capa de santo era por demais espinhosa e pesava excessivamente.

Reparando-lhe o pranto sincero, o Mestre ouviu-o, compadecido, e explicou:

- Olvidaste que, até agora, agiste no comando. Na posição de carpinteiro, modelavas a madeira; lavrador determinava o solo; médico, ordenavas aos enfermos; filósofo arregimentava idéias; músico.

Tangias o instrumento; escultor cinzelava a pedra; escritor dispunha sobre as letras; professor instruía os menos sábios que tu mesmo; administrador e legislador interferiam nos destinos alheios.

Sempre te emprestei autoridade e recurso para os trabalhos de determinação... Para envergares a capa de santo, porém, é necessário aprender a servir...

A fim de alcançares esse glorioso fim, serás, de ora em diante, modelado, brunido, aprimorado e educado pela vida.
E enquanto o Mestre sorria complacente e bondoso, o discípulo em pranto, mas reconfortado, esperava novas ordenações para ingressar no precioso curso de obediência.


O Hospital Espiritual do Mundo agradece os irmãos do CENTRO ESPÍRITA CAMINHOS DE LUZ- PEDREIRA-SP-BRASIL pela mensagem que engrandeceu este espaço de aprendizagem e encontros Sagrados.

NOTA.: As imagens usadas neste site foram tiradas da net sem autoria das mesmas. Caso alguém conheça o autor das imagens, agradeceremos se nos for comunicado, para que possamos conferir os devidos créditos. Grata, Esperança.

sábado, 3 de dezembro de 2011

MEU IRMÃO FOI MORAR COM DEUS

MEU IRMÃO FOI MORAR COM DEUS  
HOMENAGEM DE SUA FAMÍLIA QUE O AMA
 
O NASCER PARA O ALÉM...
Texto: Padre Juca
Adaptação: Sandra Zilio

Há quem morra todos os dias.
Morre no orgulho, na ignorância, na fraqueza.
Morre um dia, mas nasce outro.
Morre a semente, mas nasce a flor.
Morre o homem para o mundo, mas nasce para Deus.
Assim, em toda morte, deve haver uma nova vida.
Esta é a esperança do ser humano que crê em Deus.
Triste é ver gente morrendo por antecipação...
De desgosto, de tristeza, de solidão.
Pessoas fumando, bebendo, acabando com a vida.
Essa gente empurrando a vida.
Gritando, perdendo-se.
Gente que vai morrendo um pouco, a cada dia que passa.
E a lembrança de nossos mortos, despertando, em nós,
o desejo de abraçá-los outra vez.
Essa vontade de rasgar o infinito para descobri-los.
De retroceder no tempo e segurar a vida.
Ausência: - porque não há formas para se tocar.
Presença: - porque se pode sentir.
Essa lágrima cristalizada, distante e intocável.
Essa saudade machucando o coração.
Esse infinito rolando sobre a nossa pequenez.
Esse céu azul e misterioso.

Ah! Aqueles que já partiram!
Aqueles que viveram entre nós.
Que encheram de sorrisos e de paz a nossa vida.
Foram para o além deixando este vazio inconsolável.
Que a gente, às vezes, disfarça para esquecer.
Deles guardamos até os mais simples gestos.
Sentimos, quando mergulhados em oração,
o ruído de seus passos e o som de suas vozes.
A lembrança dos dias alegres.
Daquela mão nos amparando.
Daquela lágrima que vimos correr.
Da vontade de ficar quando era hora de partir.
Essa vontade de rever aquele rosto.
Esse arrependimento de não ter dado maiores alegrias.
Essa prece que diz tudo.
Esse soluço que morre na garganta...
E...
Há tanta gente morrendo a cada dia, sem partir.
Esta saudade do tamanho do infinito caindo sobre nós.
Esta lembrança dos que já foram para a eternidade.
Meu Deus!
Que ausência tão cheia de presença!
Que morte tão cheia de esperança e de vida!

Texto: Padre Juca
Adaptação: Sandra Zilio

Obs: Amado amigos e irmãos,

Meu amado irmão foi morar com papai do céu dia 04/11/2011 – motivo da minha ausência. Quero agradecer a todos pelas orações e mensagens de carinho.

Abraços de luz
Esperança e família

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A ALMA DO MUNDO


Quando você conseguir superar problemas graves não se detenha na lembrança dos momentos difíceis, mas na alegria de haver atravessado mais essa prova em sua vida.

Quando sair de um longo tratamento de saúde, não pense no sofrimento que foi necessário enfrentar, mas na benção de Deus que permitiu a cura.

Leve na sua memória, para o resto da vida, as coisas boas que surgiram nas dificuldades. Elas serão uma prova de sua capacidade e lhe darão confiança diante de qualquer obstáculo.

Uns queriam um emprego melhor; outros, só um emprego.
Uns queriam uma refeição mais farta; outros, só uma refeição.
Uns queriam uma vida mais amena; outros, apenas viver.
Uns queriam pais mais esclarecidos; outros, ter pais.

Uns queriam ter olhos claros; outros, enxergar.

Uns queriam ter voz bonita; outros, falar.

Uns queriam silêncio; outros, ouvir.

Uns queriam sapato novo; outros, ter pés.

Uns queriam um carro; outros, andar.
Uns queriam o supérfluo; outros, apenas o necessário.
Há dois tipos de sabedoria: a inferior e a superior.

A sabedoria inferior é dada pelo quanto uma pessoa sabe e a superior é dada pelo quanto ela tem consciência de que não sabe.

Tenha a sabedoria superior. Seja um eterno aprendiz na escola da vida.

A sabedoria superior tolera, a inferior julga;
a superior alivia, a inferior culpa;
a superior perdoa, a inferior condena.

Tem coisas que o coração só fala para quem sabe escutar!


O Hospital Espiritual do Mundo agradece a irmão EDUARDO SILVA - DO ESTADO DE SÃO PAULO pelo texto que engrandeceu este espaço de aprendizagem e encontros Sagrados. 
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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O OUTRO LADO DO AUTISMO


Portadores da síndrome de Asperger, um tipo pouco conhecido do distúrbio, se mobilizam para melhorar sua integração na sociedade.

CONEXÃO Rodolfo e outros portadores compartilham experiências

Durante três décadas, o paulista Rodolfo Vinícius Leite se sentiu distante de todo mundo: "Era como se eu fosse um alienígena na Terra." Embora levasse uma vida aparentemente normal, não conseguia acompanhar os interesses dos amigos. Aos 32 anos, foi diagnosticado com um transtorno de desenvolvimento pouco conhecido no Brasil, mas que afeta uma entre 500 pessoas: a síndrome de Asperger. Trata-se de um tipo de autismo considerado mais leve.

Entre suas características estão a dificuldade de socialização e o interesse restrito a poucos assuntos. Apesar da fala articulada, não compreendem bem figuras de linguagem, como ironias e metáforas, e têm problemas para interpretar os sentimentos dos outros. Mas, ao contrário de muitos autistas, não sofrem nenhum tipo de deficiência cognitiva e costumam ter habilidades surpreendentes, como excelente memória.

À medida que a síndrome se torna mais conhecida, começam a surgir no Brasil grupos de apoio e acompanhamento para portadores. A intenção é dividir experiências e mostrar que, com ajuda especializada, eles podem ser capazes de ter uma vida autônoma e bem-sucedida.

Com apenas seis meses de criação, um desses grupos se reúne às quartas- feiras, no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

"Conversamos sobre nossas dificuldades e nosso dia a dia", conta Leite, um dos 20 participantes. Eles também compartilham experiências em um blog na internet. Para Leite, foi um passo importante para se compreender melhor.

"Hoje eu respeito minhas limitações", diz. Graduado em letras, ele trabalhou oito anos como bancário, mas hoje está desempregado. "Tenho poucos assuntos de interesse. Só gosto de música, filmes, seriados de tevê, desenhos e carros", conta. "Não aprecio futebol e política, assuntos sobre os quais as pessoas geralmente conversam. Fico sem assunto.

Segundo o coordenador do projeto, o psiquiatra Estevão Vadasz, esse tipo de dificuldade causada pela síndrome pode fazer com que o indivíduo se isole socialmente - provocando ansiedade e até depressão. É isso que os encontros pretendem evitar. "Criamos uma espécie de clube social', diz Vadasz. 

Também em São Paulo, a Associação dos Amigos do Autista iniciou este mês uma série de reuniões para jovens com Asperger. "Queremos conhecer suas necessidades", diz a psicóloga Mariana Colla. Na internet, proliferam blogs e listas de discussão de portadores e familiares, além de comunidades dedicadas ao tema.


Nos Estados Unidos e na Europa, organizações de aspies - como se denominam os portadores - foram mais longe: lançaram um movimento argumentando que a condição não é um transtorno, mas um estilo de vida. A Aspies for Freedom combate tentativas de "normalizar" os indivíduos. No Brasil, a luta contra o preconceito está começando, mas especialistas tendem a seguir uma abordagem diferente: dizem que reconhecer a existência de uma desordem ajuda o indivíduo a sofrer menos. "Se não se adaptar, a tendência é que ele seja excluído", alerta o psiquiatra Fábio Barbirato, da Santa Casa do Rio de Janeiro.

O diagnóstico da síndrome, causada por características genéticas que afetam o funcionamento do cérebro, é feito por entrevistas e testes linguísticos. O tratamento com remédios só é necessário em casos de depressão ou ansiedade. Especialistas recomendam o acompanhamento com a terapia comportamental, que ajuda o portador a decifrar os códigos sociais. Foi assim que o estudante carioca Vinícius Souza de Moura, 18 anos, diagnosticado na infância, deu a volta por cima depois de cair em depressão.

Apesar da memória incrível - sabe datas exatas de eventos casuais e históricos, como as dos títulos do seu time, o Botafogo -, ele sente dificuldade de relacionamento. "Na terapia, trabalho conflitos, aprendo a olhar nos olhos e ser mais delicado." Cursando o terceiro ano do ensino médio, ele pretende prestar vestibular para história. Seu esforço é acompanhado do apoio da família e dos amigos, fundamental para que qualquer pessoa, com ou sem a síndrome, sinta-se acolhida no mundo.

N° Edição:  2065 |  10.Jun.09 - 10:00 |
IMAGENS: DO PRÓPRIO ARTIGO DA REVISTA

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