Aí encontra aqueles a quem amou na Terra, que a precederam na nova vida e agora
parecem esperá-la. Então, comunica-se livremente com todos, suas expansões são
repletas de felicidade, embora ainda um pouco anuviadas por tristes
reminiscências da Terra e pela comparação da hora presente com um passado cheio
de lágrimas. Outros Espíritos que perdera de vista em sua última encarnação,
mas que se tinham tornado seus afeiçoados por provas suportadas em comum no
decurso das idades, vêm também juntar-se aos primeiros. Todos os que
compartilharam seus bons ou maus dias, todos os que com ela se engrandeceram,
lutaram, choraram e sofreram correrão ao seu encontro, e sua memória,
despertando-se desde então, ocasionará explosões de felicidade e venturas que a
pena não sabe descrever.
Como resumir as impressões da vida radiante que se abre ao Espírito? A veste
grosseira, o manto pesado que lhe constrangia os sentidos íntimos,
despedaçando-se subitamente, tornam centuplicadas as suas percepções. O
horizonte se lhe alarga e não tem mais limites. O infinito incomensurável,
luminoso, desdobra-se às suas vistas com suas ofuscantes maravilhas, com seus
milhões de sóis, focos multicores, safiras e esmeraldas, joias enormes,
derramadas no azul e seguidas de seus suntuosos cortejos de esferas. Esses
sóis, que aparecem aos homens como simples lampadários, o Espírito os contempla
em sua real e colossal grandeza; vê-os mais poderosos que o luminar do nosso
planeta; reconhece a força de atração que os prende, e distingue ainda, em longínquas
profundezas, os astros maravilhosos que presidem às evoluções.
Todos esses fachos gigantescos, ele os vê em movimento, gravitando,
prosseguindo seu curso vagabundo, entrecruzando-se, como globos de fogo
lançados no vácuo pela mão de um invisível jogador.
Nós, perturbados sem cessar por vãos rumores, pelo confuso sussurro da colmeia
humana, não podemos conceber a calma solene, o majestoso silêncio dos espaços,
que enche a alma de um sentimento augusto, de um assombro que toca as raias do
pavor.
Mas o Espírito puro e bom é inacessível ao temor. Esse infinito, frio e
silencioso para os Espíritos inferiores, anima-se logo para ele e o faz ouvir
sua voz poderosa. Livre da matéria, a alma percebe, aos poucos, as vibrações
melodiosas do éter, as delicadas harmonias que descem das regiões celestes e
compreende o ritmo imponente das esferas.
Esse cântico dos mundos, essas vozes do infinito que soam no silêncio ela os
saboreia até se sentir arrebatar. Recolhida, inebriada, cheia de um sentimento
grave e religioso, banha-se nas ondas do éter, contempla as profundezas
siderais, as legiões de Espíritos, sombras ligeiras que flutuam e se agitam em
esteiras de luz.
Assiste à gênese dos mundos, vê a vida despertar-se e crescer na sua
superfície, segue o desenvolvimento das humanidades que os povoam e, nesse
grande espetáculo, verifica que em toda parte do Universo a atividade, o
movimento e a vida ligam-se à ordem.
Qualquer que seja seu adiantamento, o Espírito que acaba de deixar a Terra não
pode aspirar a viver indefinidamente dessa vida superior. Adstrito à
reencarnação, essa vida não lhe é senão um tempo de repouso: uma compensação
aos seus males, uma recompensa aos seus méritos. Apenas aí vai retemperar-se e
fortificar-se para as lutas futuras.
Porém, nas vidas que o esperam não terá mais as angústias e os cuidados da
existência terrestre. O Espírito elevado é destinado a renascer em planetas
mais bem dotados que o nosso. A escala grandiosa dos mundos tem inúmeros graus,
dispostos para a ascensão progressiva das almas, que os devem transpor cada um
por sua vez.
Nas esferas superiores à Terra o império da matéria é menor. Os males por esta
originados atenuam-se, à medida que o ser se eleva e acabam por desaparecer.
Lá, o ser humano não mais se arrasta penosamente sob a ação de pesada
atmosfera; desloca-se de um lugar para outro com muita facilidade. As
necessidades corpóreas são quase nulas e os trabalhos rudes, desconhecidos.
Mais longa que a nossa, a existência aí se passa no estudo, na participação das
obras de uma civilização aperfeiçoada, tendo por base a mais pura moral, o
respeito aos direitos de todos, a amizade e a fraternidade. As guerras, as
epidemias e os flagelos não têm acesso e os grosseiros interesses, causa das
nossas ambições, não mais dividem os povos.
Chegará afinal um dia em que o Espírito, depois de haver percorrido o ciclo de
suas existências terrestres, depois de se haver purificado através dos mundos,
por seus renascimentos e migrações, vê terminar a série de suas encarnações e
abrir-se a vida espiritual, definitivamente, a verdadeira vida da alma, donde o
mal, as trevas e o erro estão banidos para sempre. A calma, a serenidade e a
segurança profunda substituem os desgostos e as inquietações de outrora. A alma
chegou ao término de suas provações, não mais terá sofrimento. Com que emoção
rememora os fatos de sua vida, esparsos na sucessão dos tempos, sua longa
ascensão, a conquista de seus méritos e de sua elevação! Que ensinamento nessa
marcha grandiosa, no percurso da qual se constitui e se afirma a unidade de sua
natureza, de sua personalidade imortal!
Compara os desassossegos de outras épocas, os cuidados e as dores do passado,
com as aventuras do presente, e saboreia-as a longos tragos. Que inebriamento o
de sentir-se viver no meio de Espíritos esclarecidos, pacientes e atenciosos;
unir-se-lhes pelos laços de inalterável afeto; participar das suas aspirações,
ocupações e gozos; ser-se compreendido, sustentado, amado por todos, livre das
necessidades e da morte, na fruição de uma mocidade sobre a qual os séculos não
fazem mossa!
Depois, vai estudar, admirar, glorificar a obra infinita, aprofundar ainda os
mistérios divinos; vai reconhecer por toda parte a beleza e a bondade celeste;
identificar-se e saciar-se com elas; acompanhar os Gênios superiores em seus
trabalhos, em suas missões; compreender que chegará um dia a igualá-los; que
subirá ainda mais e que a esperam, sempre e sempre, novas alegrias, novos
trabalhos, novos progressos: tal é a vida eterna, magnífica, a vida do espírito
purificado pelo sofrimento.
Os céus elevados são a pátria da beleza ideal e perfeita em que todas as artes
bebem a inspiração. Os Espíritos eminentes possuem em grau superior o
sentimento do belo. Este é a fonte dos mais puros gozos, e todos sabem realizá-lo
em seus trabalhos, diante dos quais empalidecem as obras-primas da Terra.
Cada vez que uma nova manifestação do gênio se produz sobre o mundo, cada vez
que a arte se nos revela sob uma forma aperfeiçoada, pode dizer-se que um
Espírito descido das altas esferas tomou corpo na Terra para iniciar os homens
nos esplendores da beleza eterna. Para a alma superior, a arte, sob seus
múltiplos aspectos, é uma prece, uma homenagem prestada ao Princípio de todas
as coisas.
O Espírito, pelo poder de sua vontade, opera sobre os fluidos do espaço, os
combina, dispondo-os a seu gosto, dá-lhes as cores e as formas que convêm ao
seu fim. É por meio desses fluidos que se executam obras que desafiam toda
comparação e toda análise.
Construções aéreas, de cores brilhantes, de zimbórios resplendentes: sítios
imensos onde se reúnem em conselho os delegados do Universo; templos de vastas
proporções de onde se elevam acordes de uma harmonia divina; quadros variados,
luminosos: reproduções de vidas humanas, vidas de fé e de sacrifício,
apostolados dolorosos, dramas do infinito. Como descrever magnificências que os
próprios Espíritos se declaram impotentes para exprimir no vocabulário humano?
É nessas moradas fluídicas que se ostentam as pompas das festas espirituais. Os
Espíritos puros, ofuscantes de luz, agrupam-se em famílias. Seu brilho e as
cores variadas de seus invólucros permitem medir a sua elevação,
determinar-lhes os atributos. Suaves e encantadores concertos, comparados aos
quais os da Terra não são mais que ruídos discordantes; por cenários têm eles o
espaço infinito, o espetáculo maravilhoso dos mundos que rolam na imensidão,
unindo suas notas às vozes celestes, ao hino universal que sobe a Deus.
Todos esses Espíritos, associados em falanges inumeráveis, conhecem-se e
amam-se. Os laços de família, os afetos que os uniam na vida material,
quebrados pela morte, aí se reconstituem para sempre.
Destacam-se dos diversos pontos do espaço e dos mundos superiores para
comunicarem mutuamente os resultados de suas missões, de seus trabalhos, para
se felicitarem pelos êxitos obtidos e coadjuvarem-se uns aos outros nas
empresas difíceis.
Nenhum pensamento oculto, nenhum sentimento de inveja tem ingresso nessas almas
delicadas. O amor, a confiança e a sinceridade presidem a essas reuniões onde
todos recolhem as instruções dos mensageiros divinos, onde se aceitam as
tarefas que contribuem para elevá-los ainda mais.
Uns seguem a observar o progresso e o desenvolvimento dos globos; outros
encarnam nos diversos mundos para cumprir missões de devotamento, para instruir
os homens na moral e na Ciência; outros ainda, os Espíritos-guias ou
protetores, ligam-se a alguma alma encarnada, a sustentam no rude caminho da
existência, conduzem-na do nascimento à morte, durante muitas vidas sucessivas,
vindo acolhê-la no termo de cada uma delas, quando entra no mundo invisível. Em
todos os graus da hierarquia espiritual, as almas têm um papel a executar na
obra imensa do progresso e concorrem para a realização das leis superiores.
Quanto mais o Espírito se purifica, mais intensa, mais ardente nele se torna a
necessidade de amar, de atrair para a sua luz e para a sua felicidade, para a
morada em que não se conhece a dor, tudo o que sofre, tudo o que luta e se
agita nas baixas camadas da existência.
Quando um desses Espíritos adota um de seus irmãos atrasados e torna-se seu
protetor, seu guia, com que solicitude afetuosa lhe sustenta os passos, com que
alegria contempla os seus progressos e com quanta dor vê as quedas que não pôde
evitar!
Assim como a criança descida do berço ensaia seus primeiros passos sob os
olhares enternecidos da sua carinhosa mãe, assim também, sob a égide invisível
de seu pai espiritual, o Espírito é assistido nos combates da vida terrestre.
Todos temos um desses Gênios tutelares que nos inspira nas horas difíceis e
dirige-nos pelo bom caminho. Daí a poética tradição cristã do anjo da guarda.
Não há concepção mais grata e consoladora. Saber que temos um amigo fiel e
sempre disposto a socorrer-nos, de perto como de longe, influenciando-nos a
grandes distâncias ou conservando-se junto de nós nas provações; saber que ele
nos aconselha por intuição e nos aquece com o seu amor, eis uma fonte
inapreciável de força moral. O pensamento de que testemunhas benévolas e
invisíveis vêem todos os nossos atos, regozijando-se ou entristecendo-se, deve
inspirar-nos mais sabedoria e circunspecção. É por essa proteção oculta que se
fortificam os laços de solidariedade que ligam o mundo celeste à Terra, o
Espírito livre ao homem, Espírito prisioneiro da carne. É por essa assistência
contínua que se criam, de um a outro lado, as simpatias profundas, as amizades
duradouras e desinteressadas. O amor que anima o Espírito elevado vai pouco a
pouco se estendendo a todos os seres sem cessar, revertendo tudo para Deus, pai
das almas, foco de todas as potências efetivas.
(Léon Denis - Depois da Morte)
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devidos créditos. Grata, Esperança.