domingo, 17 de abril de 2011

ALÉM DO CORPO


Por: Celina Cõrtes, Juliane Zaché e Lena Castellón
Colaborou Lia Bock

Dois eventos científicos serão realizados para discutir o tema, enquanto centros espíritas que oferecem tratamento estão lotados.

Procura: No centro do médium Waldemar são atendidas 300 pessoas por semana. A fila de espera é de um mês.

Nesta semana, a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – uma das mais importantes da América Latina – será sede de um encontro que, anos atrás, dificilmente ocorreria em suas instalações. No sábado 31, médicos, estudantes e outros profissionais da saúde estarão reunidos em um dos auditórios da instituição para participar do 1º Simpósio de Medicina e Espiritualidade, organizado pela Associação Médico-Espírita de São Paulo. O objetivo do encontro é fazer uma revisão da literatura científica sobre o tema e confeccionar uma proposta de inclusão da disciplina “medicina e espiritualidade” no currículo das escolas médicas. A realização do evento dentro da USP é sintomática. Mostra que a comunidade científica começa a se abrir para o estudo dos fenômenos que envolvem a crença em um mundo espiritual e suas repercussões na saúde.

Outra evidência da crescente importância do tema será a realização, também na capital paulista, em junho, do IV Congresso Nacional da Associação Médico-Espírita do Brasil. O encontro reunirá 2,5 mil profissionais brasileiros e do Exterior. O evento trará cientistas de instituições estrangeiras respeitadas, como o médico Harold Koenig, diretor do Centro para o Estudo da Religião/Espiritualidade e Saúde da Universidade de Duke (EUA). Boa parte dos especialistas estrangeiros não segue o espiritismo, doutrina que conta com mais de dois milhões de adeptos no Brasil. Ela é baseada na crença da existência e imortalidade de espíritos, na sua capacidade de influenciar a vida e a saúde dos habitantes na Terra e na possibilidade de comunicação com eles.

Mágoas – A realização dos eventos é apenas uma mostra do crescimento da medicina espírita no Brasil. Outra prova da sua força é o aumento do número de associações médico-espíritas. Em 1995, existiam nove entidades. Hoje, são 30. Essas entidades reúnem profissionais que praticam a medicina convencional, mas usam sua crença para tentar melhorar a saúde do paciente que quiser receber esse atendimento. De acordo com eles, o organismo pode ser influenciado por espíritos que partiram da Terra – chamados de desencarnados – ou por pensamentos das próprias pessoas.

“Indivíduos que guardam mágoas, por exemplo, sofrem alterações químicas que podem levar ao aparecimento de doenças ou ao seu agravamento”, diz Kátia Marabuco, oncologista da Universidade Federal do Piauí. “Nós, espíritas, também acreditamos que as pessoas negativas podem atrair espíritos desencarnados que contribuem para o surgimento de desequilíbrios físicos e mentais”, explica. A tática dos profissionais que seguem a doutrina é adotar medidas preconizadas pelo espiritismo para reverter esses quadros. 

Uma delas é fazer a aplicação de passes (imposição de mãos para energização e transferência de bons fluidos). Foi dessa forma que a paisagista paulistana Celeste Nardi, 62 anos, se tratou de depressão e outros problemas. Há quatro anos, frequenta uma clínica onde recebe atendimento psicológico e espiritual. Hoje, Celeste está bem. Para ajudar outros pacientes, ela aprendeu a aplicar o passe. “Quem passou por uma situação semelhante transmite uma energia de cura para quem necessita”, diz.

Essas práticas também fazem parte do tratamento aplicado nos hospitais espíritas existentes no País. Hoje, há 100 instituições do gênero. São entidades que oferecem atendimento espiritual gratuito. A maioria delas é destinada à assistência psiquiátrica. Nesses locais, o doente é submetido ao tratamento tradicional – o que inclui remédios e terapia psicológica – e, se desejar, cuida do espírito.



Uma dessas instituições é a Fundação Centro Espírita Nosso Lar Casas André Luiz, em Guarulhos (SP). Na instituição moram cerca de 700 portadores de deficiências mentais e outros 500 são atendidos no ambulatório. A maior parte nasceu com paralisia cerebral.


MIX: Lúcio tem paralisia cerebral e controlou crises de inquietação com a associação das terapias convencional e espiritual.

Tese – O psiquiatra Frederico Leão é um dos médicos da fundação. Surpreso diante da evolução de doentes que combinavam o atendimento espiritual e o convencional, ele está fazendo uma tese de mestrado sobre o assunto, que será defendida na USP. “Vi casos em que, quando os doentes se submetiam ao tratamento médico e espiritual, tinham uma evolução boa”, conta. Um dos casos é o do paciente Lúcio (nome fictício), 30 anos, que nasceu com paralisia cerebral. Ele não se expressa direito e se locomove numa cadeira de rodas. Há cinco anos, passou a ficar inquieto e manchas escuras apareceram em sua pele. “Os médicos fizeram de tudo e nada adiantou”, lembra-se Márcia Lopes, psicóloga da instituição. Continuaram com os remédios, mas também aplicaram o passe. Os sintomas desapareceram.


Mudança: Celeste tinha problemas de saúde e foi tratada com passes. Ela aprendeu o método e hoje o aplica em outras pessoas. Outra instituição é o Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro, de Curitiba. Lá, os médicos também adotam uma prática da doutrina que ajudaria no tratamento. São as sessões de “desobsessão”, reuniões nas quais médiuns (pessoas por meio das quais os espíritos se manifestariam) serviriam como instrumento para que espíritos que estão atormentando o doente se comunicassem e fossem convencidos a deixá-lo em paz. “Quando isso acontece, o paciente fica mais calmo e seu estado clínico melhora”, garante o psicólogo Mário Sérgio Silveira, da instituição. O Hospital Espírita André Luiz, de Belo Horizonte, também usa o tratamento de “desobsessão”. “Em casos difíceis de esquizofrenia, por exemplo, fazemos essa recomendação”, afirma Roberto Lúcio de Souza, psiquiatra e diretor da instituição. Em nenhum desses locais, no entanto, deixa-se a terapia convencional de lado. “O tratamento espírita é complementar e não alternativo. Quem passa pelo atendimento, para qualquer doença, não pode deixar de tomar os remédios”, alerta Marlene Nobre, presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil. Além dos hospitais, outros lugares bastante procurados para tratamento espiritual são os centros espíritas. Uma das maiores referências é o Lar de Frei Luiz, no Rio de Janeiro. A instituição conta com 800 médiuns e recebe cerca de quatro mil visitantes em cada um dos dias de atendimento (quarta-feira e domingo).

Há 12 anos, essa média era de 800 pessoas. Todos buscam curas físicas, espirituais ou algum consolo. Há salas de cura, de “desobsessão” e de passes.

Uma das histórias mais incríveis relacionadas ao centro foi a do compositor Tom Jobim (1927-1994). Quando se submetia a tratamentos convencionais para tratar um câncer de bexiga, Tom esteve duas vezes no Frei Luiz. Na véspera de viajar para Nova York, em 1994, quando morreu de parada cardíaca no Hospital Mount Sinai, o músico conversou com Ronaldo Gazolla, já falecido, na época presidente do centro. Tom estava na dúvida se viajava e quis saber a opinião de Gazolla. O médico desconversou, não queria influenciar o maestro, embora soubesse que os espíritos já o consideravam curado. “Mas se fosse com você?”, insistiu Tom. “Se fosse eu, não iria”, recomendou Gazolla. Não se sabe o que teria acontecido ao compositor se ele tivesse ouvido o conselho, mas com certeza não teria morrido na mesa de cirurgia. Ana Lontra Jobim, viúva do músico, fala do assunto com reserva.

“Quando esteve lá, ele saiu mais aliviado”, conta. A farmacêutica Helena Gazolla, viúva de Ronaldo Gazolla, que assumiu a presidência da instituição, explica que, se ocorreram curas, são consequência do merecimento dos doentes. “A pessoa se cura por meio de sua fé. Os médiuns são apenas um canal de energia para ajudar na recuperação de cada um”, diz. Um dos atendimentos mais importantes e incomuns em centros espíritas, oferecido pelo Lar de Frei Luiz, são as sessões de materialização, nas quais os espíritos poderiam ser vistos. A matéria-prima que daria forma física ao espírito é chamada de ectoplasma (substância que, de acordo com o espiritismo, seria liberada pelos médiuns para possibilitar a materialização das almas). Nessas reuniões, ocorrem também cirurgias espirituais, feitas por espíritos desencarnados que usariam o corpo do médium.

Cirurgia – Em Leme, no interior de São Paulo, há outro centro famoso pelas cirurgias. É a instituição comandada pelo médium Waldemar Coelho, 65 anos, que realiza essas operações há quatro décadas. “Curamos o corpo quando o problema é material e o espírito quando o problema é um carma”, garante.

Dois espíritos se manifestariam por meio de Waldemar – um chinês e um médico austríaco. Seriam eles que, sem nenhum corte ou sangue, operariam as pessoas de câncer, diabete e dor nas costas, entre outros males. Cerca de 300 pessoas são atendidas por semana. A fila de espera é de um mês. O procedimento é feito num quarto reservado, na presença do médium e de seus ajudantes. Na verdade, a cirurgia espiritual não é consenso entre os espíritas. Muitos acreditam que a prática dá margem ao charlatanismo e não deveria ser realizada. De qualquer forma, o fenômeno da medicina espírita intriga a ciência e tem suscitado a realização de estudos. Um deles foi feito no Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos do Hospital das Clínicas de São Paulo, vinculado à Faculdade de Medicina da USP. Os cientistas acompanharam o trabalho de um famoso cirurgião espiritual de Goiás em seis pacientes. Eles verificaram que, embora não tivesse sido dada anestesia, praticamente não houve queixa de dor. Também não havia assepsia, mas nenhum doente teve infecção no período observado (quatro dias). “Houve intervenção na região afetada, mas não podemos garantir que funcionou”, observa o psiquiatra Alexander Almeida, coordenador do núcleo.

Outro médico que também faz pesquisas é o psiquiatra Sérgio Felipe de Oliveira, presidente da Associação Médico-Espírita de São Paulo. “Há evidências suficientes para que a ciência se interesse pelo assunto. Na minha clínica, observo que quem recebe atendimento médico e espiritual toma menos remédios e adere melhor ao tratamento em relação aos que só passam pela consulta”, afirma.

Santuário Espiritual Ramatís, Rua Carlos Krempel 70, Jardim Bosque, Leme - SP. CEP: 13610-000. Telefone: (19) 572-1100. 

Pesquisa – Oliveira é um dos cientistas que defendem o aprofundamento das investigações sobre a medicina e a espiritualidade, até para que seja possível encontrar a resposta para os casos bem-sucedidos desse casamento. A idéia é estudar não só os efeitos das práticas espíritas, mas o poder da oração e da fé, por exemplo. Essa proposta já é seguida por instituições estrangeiras.

Alguns cientistas chegaram a conclusões interessantes. “A religiosidade fortalece o sistema de defesa dos pacientes”, disse a ISTOÉ Harold Koenig, da Universidade de Duke. Porém, nem sempre os tratamentos que unem medicina e religiosidade, inclusive o espiritismo, têm final feliz. Por isso, muitos cientistas vêem com reservas essa relação. O psiquiatra Richard Sloan, da Universidade de Columbia (EUA), é radical. “Os estudos feitos até agora são fracos. Não mostram evidências de que a espiritualidade pode ajudar no tratamento”, disse a ISTOÉ. Para o infectologista Caio Rosenthal, de São Paulo, não cabe ao médico entrar nessa área. “Ele deve se ater àquilo que é comprovado pela ciência”, defende. Já o Conselho Federal de Medicina não critica os médicos que estimulam a prática religiosa a seus pacientes. “Mas somos contra as pessoas que praticam a medicina sem ser médicos, como as que realizam as cirurgias espirituais”, avisa Luiz Salvador de Miranda Sá Júnior, primeiro secretário do CFM. Na verdade, a cirurgia espiritual não é consenso entre os espíritas. Muitos acreditam que a prática dá margem ao charlatanismo e não deveria ser realizada. De qualquer forma, o fenômeno da medicina espírita intriga a ciência e tem suscitado a realização de estudos. Um deles foi feito no Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos do Hospital das Clínicas de São Paulo, vinculado à Faculdade de Medicina da USP. Os cientistas acompanharam o trabalho de um famoso cirurgião espiritual de Goiás em seis pacientes. Eles verificaram que, embora não tivesse sido dada anestesia, praticamente não houve queixa de dor. Também não havia assepsia, mas nenhum doente teve infecção no período observado (quatro dias). “Houve intervenção na região afetada, mas não podemos garantir que funcionou”, observa o psiquiatra Alexander Almeida, coordenador do núcleo. Outro médico que também faz pesquisas é o psiquiatra Sérgio Felipe de Oliveira, presidente da Associação Médico-Espírita de São Paulo. “Há evidências suficientes para que a ciência se interesse pelo assunto. Na minha clínica, observo que quem recebe atendimento médico e espiritual toma menos remédios e adere melhor ao tratamento em relação aos que só passam pela consulta”, afirma.


Pesquisa – Oliveira é um dos cientistas que defendem o aprofundamento das investigações sobre a medicina e a espiritualidade, até para que seja possível encontrar a resposta para os casos bem-sucedidos desse casamento. A idéia é estudar não só os efeitos das práticas espíritas, mas o poder da oração e da fé, por exemplo. Essa proposta já é seguida por instituições estrangeiras. Alguns cientistas chegaram a conclusões interessantes. “A religiosidade fortalece o sistema de defesa dos pacientes”, disse a ISTOÉ Harold Koenig, da Universidade de Duke. Porém, nem sempre os tratamentos que unem medicina e religiosidade, inclusive o espiritismo, têm final feliz. Por isso, muitos cientistas vêem com reservas essa relação. O psiquiatra Richard Sloan, da Universidade de Columbia (EUA), é radical. “Os estudos feitos até agora são fracos. Não mostram evidências de que a espiritualidade pode ajudar no tratamento”, disse a ISTOÉ. Para o infectologista Caio Rosenthal, de São Paulo, não cabe ao médico entrar nessa área. “Ele deve se ater àquilo que é comprovado pela ciência”, defende. Já o Conselho Federal de Medicina não critica os médicos que estimulam a prática religiosa a seus pacientes. “Mas somos contra as pessoas que praticam a medicina sem ser médicos, como as que realizam as cirurgias espirituais”, avisa Luiz Salvador de Miranda Sá Júnior, primeiro secretário do CFM.
Confiança na Cirurgia
Há cinco anos, a católica Maria de Lourdes Bueno da Silva, 60 anos, moradora de Leme (interior paulista), descobriu um câncer de mama. Muito assustada com a doença, ela resolveu tratar não só do corpo como também do espírito.
Foi por isso que fez uma cirurgia espiritual logo após a operação para a retirada do nódulo. “Cuidar de mim de uma forma completa me fez muito bem”, lembra. Concluída a operação no centro espírita de Waldemar Coelho, Maria de Lourdes se sentiu fortalecida. “O médium me disse que fosse embora tranquila, pois estava curada”, comenta. Dias depois, ela se submeteu a outra intervenção, desta vez tradicional, para retirar tecidos da região afetada e, assim, garantir que o câncer não reaparecesse. Maria de Lourdes assegura que naquele momento já estava mais segura. “O apoio do meu médico e da minha família para que eu fizesse a cirurgia espiritual foi fundamental”, completa.

Belo Progresso
A treinadora do Flamengo e deputada estadual Georgette Vidor (PP), 45 anos, ficou paraplégica após um acidente de ônibus em maio de 1997. Dois anos depois, decidiu dar mais atenção à sua espiritualidade. “Comecei a receber passes. Não achava que aquilo iria me tirar da cadeira de rodas.

Queria me tornar uma pessoa melhor”, explica. Mesmo com toda a adrenalina de treinadora, ela dava um jeito de não faltar às sessões. Mas, depois que começou a campanha para deputada, em 2002, não deu mais.

“Sinto uma falta danada”, comenta, lembrando-se com carinho dos círculos em que as pessoas — muitas delas em cadeiras de roda, como ela — se davam as mãos. Embora lamente o acidente até hoje, admite que conseguiu o objetivo de se aprimorar. “Meus amigos até me dizem que eu era muito carrancuda e fiquei mais bonita”, festeja.
Esperança Renovada
Há nove anos, a feirante Conceição (nome fictício), 39 anos, descobriu que era soropositiva. Desde então, toma os remédios anti-Aids e há quatro anos frequenta uma clínica que oferece apoio psicológico e espiritual. Ela recebe passes e reza. Recentemente, Conceição precisou de mais ajuda. Em 2001, engravidou. Ela não sabia que o bebê corria o risco de ser contaminado e deveria se submeter a um tratamento médico rigoroso para diminuir essa possibilidade. Quando a criança nasceu, exames mostraram que o bebê poderia ser portador do HIV porque apresentava anticorpos contra o vírus.“Só não fiz uma loucura porque me apeguei ao atendimento espírita”, conta. Na semana passada, ela teve uma boa notícia. Os médicos disseram que seu filho, de quase dois anos, está livre do vírus. Ele tinha no organismo apenas os anticorpos, passados pela mãe.
Proteção e Equilíbrio
Desde 1995, Elba Ramalho, 51 anos, é frequentadora assídua do centro espírita Lar de Frei Luiz, no Rio. A cantora já fez diversos tratamentos. Numa ocasião, sentiu pontadas estranhas na região do fígado. Elba foi operada em uma sessão de materialização – em que um espírito se materializa, segundo a doutrina espírita. No Frei Luiz, o principal médico a realizar esses trabalhos é o espírito do doutor Frederick, um alemão nazista que viria do além para limpar seu carma. “Ele abriu minha barriga inteira com seu dedo. Jorrava sangue. Disse que eu tinha uma carga muito grande nessa região, que poderia se transformar em doença no futuro próximo”, recorda-se. Elba afirma que recorre ao centro não apenas em busca de cura física e espiritual. “Frei Luiz me dá proteção, equilíbrio e muita paz”, diz.
Outra Chance
Em 1992, o agricultor paulista Ricardo Hildebrand, 52 anos, católico, descobriu que tinha dois tumores no cérebro. Atendido num hospital de Campinas (SP), apenas um tumor foi retirado. O outro estava localizado numa região considerada delicada. Abalado, Hildebrand recorreu a um centro para fazer uma cirurgia espiritual. “Era minha última chance. Tinha que dar certo e eu sentia que daria, apesar de não saber como”, conta. Após ter feito a operação, ele se submeteu a uma tomografia. “Levei o novo exame ao especialista e não lhe falei sobre a cirurgia. Ele analisou o resultado junto com outros colegas. No final, disse-me que o tumor tinha desaparecido e que eu estava curado. O médico não conseguia explicar o que aconteceu”, lembra-se. O agricultor reconhece que é normal desconfiar da veracidade de sua história. “Só acredito porque aconteceu comigo.

REVISTA “ISTOÉ” – Edição 1756 – 28/05/2003 
Matéria: Artigo.: ALÉM DO CORPO / “Medicina Espiritual
Por: Celina Cõrtes, Juliane Zaché e Lena Castellón
Colaborou Lia Bock.
IMAGEM DO PRÓPRIO ARTIGO DA REVISTA
Se deseja compartilhar e divulgar estas informações, reproduza a integralidade do texto e cite o autor e a fonte. Obrigada, Hospital Espiritual do Mundo.

sábado, 16 de abril de 2011

Cura e Autocura Espiritual

Por Victor Rebelo

A única coisa que realmente importa é você perceber, compreender que existe um estado de consciência “divino”, além de todo sofrimento 

A maioria das pessoas, quando dá seus primeiros passos na longa jornada do autoconhecimento e, consequentemente, da autocura, costuma dissociar o aprendizado espiritual do dia-a-dia. Claro que nossos primeiros passos aconteceram lá atrás, quando a consciência ou o princípio inteligente começou a se manifestar na matéria/energia, mas me refiro ao primeiros passos dados nesta nossa atual reencarnação.

Muitos passam o dia inteiro estressados, ansiosos ou cansados, com a mente dispersa, sem foco no “aqui e agora”. Chegam de noite no centro espírita, umbandista, ou seja lá o que for, na esperança de receberem o amparo divino, manifestado na boa vontade daqueles que lá estão para servir, seja encarnado ou desencarnado.

Mesmo neste momento tão especial, poucos são os que se mantêm presentes, de corpo e alma. Uns cochilam, outros assistem à palestra sem o menor interesse, outros, ainda, aguardam ansiosamente pelo passe energético ou a água magnetizada... e todos vão para seus lares na esperança de dias melhores! Mas eu pergunto: quando será um dia melhor? Amanhã? No futuro?

A grande diferença, entre um espírito “maduro” e outro não, é que, as pessoas mais conscientes, mais lúcidas, sabem que nosso aprendizado espiritual ocorre todos os dias, em todos os momentos. Toda hora é propícia para entendermos como somos, como reagimos diante das circunstâncias da vida.

Além disso, não podemos achar que somente na hora da palestra ou no momento do passe é que devemos abrir o coração, serenar a mente ou “pensar em Jesus”. Quem nunca ouviu dizer que “o Reino de Deus está dentro de nós”? Pois é, está mesmo, à nossa disposição – hoje – não amanhã, quando formos seres iluminados, anjos... Na verdade, isso tudo é secundário! Ser evoluído ou não, não faz a menor diferença, nem mesmo para Deus! A única coisa que realmente importa é você perceber, compreender que existe um estado de consciência “divino”, além de todo sofrimento, todo dissabor, toda frustração e ilusão, e basta acessarmos este estado de lucidez para sentirmos aquela tão sonhada paz interior. Jesus disse “Buscai o Reino de Deus e tudo mais virá por acréscimo”. Então... tá esperando o quê?

No começo não é fácil. Temos a crença enraizada de que só podemos estar bem quando tudo está “perfeito”. Aí é que está a raiz do problema.

Muitos dizem que os grandes pensadores espiritualistas eram contra as coisas mundanas, mas isso não é verdade. Buda, por exemplo, não condenava o desejo, pois quando não aceitamos nossos desejos, automaticamente criamos um conflito interno e perdemos a percepção dos planos mais elevados da realidade.

O problema não está no desejo, mas no apego que temos aos nossos desejos. O apego, a necessidade em realizar um desejo é que causa sofrimento e não o desejo em si. Além disso, Buda sempre nos aconselhou a buscarmos o “caminho do meio”, ou seja, o do equilíbrio.

Orai e vigiai! Quando estamos focados no presente (seja meditando, orando ou fazendo qualquer atividade, como lavar a louça) nos tornamos mais conscientes dos nossos pensamentos, sentimentos e atitudes, assim como ficamos mais sensíveis à dor alheia. Nos tornamos mais capazes de amar sem nos envolvermos no desequilíbrio do outro. Aprendemos a respeitar a individualidade de cada um, pois passamos a respeitar o nosso próprio jeito de ser. Então, a harmonia envolve nosso corpo, nossa mente, nossa alma... num grande processo de cura, individual e coletiva. Saúde e Paz!

Escrito por Victor Rebelo
Cura e Autocura Espiritual
Editorial Publicado na Revista Cristã de Espiritismo, Ano IX - edição 67.
Obs: Ao reproduzir o texto, favor citar o autor e a fonte.

Mensagem de Dom Inácio de Loyola II


Psicografada pelo Médium João de Deus

“Nos cuidados a que te reportas em tua vida diária, não te esqueças que a fé constitui-se dom sublime devendo ser cultivada constantemente. Muitos possuem fé enquanto tudo corre de acordo com seus desejos, mas são poucos os que perseveram na paciência e humildade quando surgem provações e sofrimentos.

A maioria ostenta um crucifixo no peito, mas nenhum se deixa crucificar. É compreensível que o ser humano repudie a dor, contudo é inconcebível que um cristão autêntico deseje encontrar a felicidade plena e segura no mundo material.

Se desejas seguir o Cristo, recordai que sua vida foi martírio e dor constante, renúncia e serviço. Parai um pouco e não sede hipócritas em suas palavras, porque não serão elas que vos conduzirão à vida eterna, mas sim a perseverança firme na prática do bem, um auxílio concreto e desinteressado a todos os irmãos e companheiros do caminho.

Que a paz do Mestre habite em vossos corações.

Dom Inácio.”

Mensagem Psicografada pelo Médium João de Deus, em Abadiânia em 07 de maio de 1982. Publicada no livro "Uma missão de Amor" de Carlos Joel Castro Alves.

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Um Pedido de Jesus!

Por: Ismael de Almeida

Quando as mensagens vêm do plano superior, elas vem impregnadas de vibrações destas dimensões, para que os corações, possam aceitar sem hesitação, os ensinamentos que buscam mostrar o caminho iluminado, que tem como único objetivo, construir templos luminosos nos santuários internos das almas, para que o amor possa fazer morada no interior daqueles que já se acham preparados.

JESUS quer conquistar corações mas é conquista de paz, pela bondade, pela ternura que é filha dileta do amor, levando aos corações seus ensinamentos de VIDA eterna.  JESUS não coage, não impõe, não cerceia liberdade, não divide para reinar, não separa. JESUS ensina a irmandade dos homens e a paternidade de Deus, o Pai único indivisível que deve reinar soberano nos corações de seus filhos. O mestre mostra que DEUS é amor e ninguém deve ficar órfão da misericórdia divina. JESUS quer construir templos de LUZ-AMOR, nos corações de seus amigos.

O mestre sabe que em cada coração humano se oculta uma dor, uma amargura, um sofrimento escondido. JESUS  ensina a cura dos males humanos pelo único remédio redentor, o amor que deve ser cultivado nos corações. O amor é a única solução para a dor humana, não existe outro remédio que seja eficaz, que verdadeiramente traga uma cura permanente.

Os olhos do mestre se voltaram para esta comunidade, para que o incêndio do AMOR, seja ensinado como o remédio para a cura do sofrimento da humanidade, porque “fora do amor não há salvação”.O mestre quer um”incêndio de amor” nos corações desta comunidade, por isso as mensagens estão vindo em cascata, para serem assimiladas.

A nova era conhecerá a força do amor, a cura pelo amor, a fraternidade que irá construir um mundo de paz, onde o bem seja compartilhado, sob o comando de corações amorosos, por que o coração não abriga a mentira, nem o engodo, nem a fraude, o coração só conhece a VERDADE  e o AMOR.

O amor convida esta comunidade a abrigar no seu seio as sementes de ternura e bondade, que devem ser levadas para o mundo, pelo pensamento e o sentimento, e jogadas nos corações da humanidade, para fazer da Terra, o que o Criador determinou um Oasis de paz e abundancia.

Uma humanidade com corpos saudáveis, onde a medicina, seja empregada apenas para atender acidentes, por que a doença terá desaparecida da face da Terra.
Uma humanidade que compartilha os seus bens, onde não haja poucos com muito, e muitos com tão pouco. Esta CIVILIZAÇÃO será construída com alicerces de amor, e esta comunidade é um dos artífices construtores, que ajudará a edificar o EDIFICICIO, do NOVO MUNDO.

A hora é agora e o começo é aqui. Por isso a redundância dos ensinamentos para que eles toquem corações, e o entusiasmo seja propulsor de determinações, que sinalizam o futuro como conquista do presente.

JESUS, convida os que são seus pelo coração e pelo amor, e sabe que o amor irá tocar nos corações dos seus amigos, e seu pedido será aceito, amado e cooperado!

Mensagem enviada para o Hospital Espiritual do Mundo pela irmã Dora Saunier, Rio de Janeiro -  Brasil.

Obs: Ao reproduzir o texto, favor citar autor e a fonte.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Convite Especial

CASA DE DOM INÁCIO DE LOYOLA
SUL

CONVITE 
Temos a satisfação de informar que nos dias: 
30 de Abril, 01 e 02 de Maio 2011 
O Médium João Teixeira de Farias 
Estará atendendo na 
Casa Dom Inácio de Loyola Sul 
horário: 08hs pela manhã e 14hs a Tarde. 
Maiores informações, localização e mapa 
acessar 
Site: 
http://www.casadominacio-sul.com.br/ 

Formatação: Lucia Beatriz Schneider

O Caminho da Vida

Por: Val Cabral

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódios... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e massacres. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

Val Cabral
Mensagem enviada para o Hospital Espiritual do Mundo pela irmã Dora Saunier, Rio de Janeiro -  Brasil.

Obs: Ao reproduzir o texto, favor citar autor e a fonte.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

CHICO XAVIER E A ALMA DO BRASIL


Oito anos depois de sua morte, o mito do médium mineiro está vivo, forte e será renovado por uma onda de filmes que celebram o centenário de seu nascimento. O que explica essa popularidade?

PSICOGRAFIA
O ator Nelson Xavier como Chico, em cena do filme que será lançado no mês que vem. O espiritismo ganha as telas. 

Como se explica que um homem pobre, doente e semi-instruído, nascido mulato no início do século passado, em um rincão distante de Minas Gerais, viesse a se tornar, ao longo de seus 92 anos de vida, e sobretudo depois dela, uma espécie de mito brasileiro – um nome capaz de emocionar, motivar e organizar as pessoas em torno de uma fé e do trabalho filantrópico que ela inspira? O que havia na personalidade e nas ideias daquele homem careca, estrábico, sempre de peruca e óculos escuros, que se expressava com a fala pausada e amanteigada dos mineiros, capaz de sobreviver a sua morte em 2002 e transformá-lo em objeto de culto, de estudo e de interesse crescente dos meios de comunicação? Por que o celibatário ao mesmo tempo doce e obstinado, que se dizia capaz de conversar com os mortos e foi perseguido e ridicularizado por isso, conseguiu expressar tão bem a alma brasileira a ponto de tornar-se, ele mesmo, um ícone popular e uma figura respeitada mesmo entre aqueles que não compartilham de suas polêmicas convicções?

As respostas a essas perguntas, se elas existirem, talvez surjam no decorrer deste ano, quando se celebra, com uma onda de filmes, o centenário de nascimento de Chico Xavier, o médium mais conhecido do mundo e uma das personalidades mais queridas dos brasileiros. 



No dia 2 de abril, data de seu nascimento em 1910, estreará Chico Xavier – O filme. Baseado no best-seller de Marcel Souto Maior, As vidas de Chico Xavier, e dirigido pelo blockbuster Daniel Filho, o longa-metragem vai ocupar 300 salas, promete lotar os cinemas e apresentar ao grande público (sobretudo aos jovens)uma história que, se fosse roteiro de ficção, seria classificada de inverossímil.

Ou, no mínimo, exagerada. Garoto pobre do interior perde a mãe aos 5 anos, é maltratado na infância e começa a ver espíritos; escreve livros que seriam ditados por grandes nomes da literatura já mortos e ganha projeção nacional ao psicografar mensagens de pessoas que já morreram para parentes inconsoláveis. Lança mais de 400 obras literárias, que vendem 50 milhões de exemplares – mas doa tudo para a caridade. Sem boa saúde, trabalha sem parar e vive de seu salário do Ministério da Agricultura até morrer. Sem ser católico, vira quase um santo.

LADO HUMANO 
Célida Diniz, de Pedro Leopoldo, com cartas de Chico Xavier. Em busca do homem escondido atrás da lenda.
O filme que conta sua vida – e tem Ângelo Antônio e Nelson Xavier vivendo o médium em duas fases – não será o único a estrear neste ano. Pelo menos outras quatro produções ligadas ao espiritismo – e ao médium – devem abocanhar boa bilheteria, inaugurando uma onda espírita no cinema nacional e popularizando ainda mais sua figura. Pode-se dizer que o trailer desta grande tendência foi Bezerra de Menezes – O diário de um espírito. No fim de 2008, o filme, com roteiro ruim e arrastado, levou aos cinemas mais de 300 mil espectadores ao mostrar a trajetória do chamado Médico dos Pobres, outro ícone da religião de Chico Xavier. A explicação: a força do espiritismo no país, que teria, de acordo com a Federação Espírita Brasileira (FEB), cerca de 20 milhões de adeptos. Agora, novos filmes de alguma forma ligados ao médium estão para ser lançados (leia o quadro na próxima página).

Um deles tem potencial especial para o sucesso: Nosso lar, de Wagner de Assis, baseado no livro mais vendido de Chico, promete efeitos especiais feitos no Canadá, reproduzindo o cenário da vida no além, foco dessa obra que relata o lugar para onde iriam os espíritos depois da morte.

Chico Xavier sempre foi um campeão de audiência. Em 1971, ele participou do programa Pinga-fogo, numa entrevista que deixou 75% dos televisores brasileiros ligados na TV Tupi. No Natal daquele mesmo ano, uma nova participação do médium foi veiculada por um pool nacional de quatro emissoras. Chico ganhou uma projeção que o mineirinho de Pedro Leopoldo, filho de mãe lavadeira e pai vendedor de bilhetes de loteria, ambos analfabetos, jamais conseguiria imaginar. Em 2000, foi eleito O Mineiro do Século, numa promoção da TV Globo local. Em 15 dias, 2,5 milhões de pessoas escolheram seu nome, por meio da internet e do telefone. Em 2006, ÉPOCA fez uma pesquisa entre os leitores sobre quem seria O Maior Brasileiro da História. Para votar, por meio do site, havia opções como Ruy Barbosa, Getúlio Vargas, Pelé e Ayrton Senna – além da opção Outros. Chico Xavier ficou em primeiro, com 36% dos votos, quase o dobro do segundo colocado, Senna. Todos os seus votos foram escritos na lacuna em branco – um resultado que mostra a admiração dos brasileiros por sua figura ao mesmo tempo paternal e misteriosa.

Cartas psicografadas por Chico Xavier ajudaram a absolver em julgamento de duas pessoas acusadas de assassinato. O que isso revela sobre o país?

SAIBA MAIS
“Queremos pisar no chão em que ele pisou”, diz a dona de casa paulistana Alita Polachini, de 56 anos. Acompanhada do marido, o empresário Renato, ela passou três dias da semana passada em Pedro Leopoldo, de 60 mil habitantes, visitando a praça que leva seu nome, a fazenda onde ele trabalhou e conversando com gente que o conheceu. À noite, o casal assistiu à reunião pública do Centro Espírita Luiz Gonzaga, que ele fundou em 1927.

Entoaram os cânticos ao médium, ouviram palestra que tratava, entre outras coisas, dos ensinamentos espíritas do filme Avatar – e choraram. “Tudo o que se refere ao Chico me faz chorar.

Não sei explicar. As lágrimas só descem”, afirma Alita. A 500 quilômetros dali, em Uberaba, no Triângulo Mineiro, cidade que Chico adotou a partir de 1959, um ciclista solitário reverencia seu mausoléu. “Não sou espírita. Mas venho aqui sempre que quero um pouco de paz”, diz o professor de literatura Adaílton Oliveira, de 33 anos.

Muita gente faz o mesmo. Deixam bilhetes presos no vidro de seu túmulo. Ligam para os centros das duas cidades pedindo ajuda, cura, dinheiro, amor. Ou apenas querem falar com alguém que o tenha conhecido.

Por que o mito Chico Xavier só cresce, mesmo depois de sua morte? Por si só, o espiritismo gera curiosidade, mesmo entre não adeptos. Organizada no século XIX pelo francês Allan Kardec, a doutrina afirma que o espírito segue uma linha evolutiva através de sucessivas reencarnações. A vida na Terra seria um aprendizado para a eternidade. O espiritismo também é uma religião que não impõe obrigações nem lista pecados. O que se faz em vida é o que se leva dela para as próximas existências. Com Chico Xavier, “porta-voz do além”, como era chamado, o mundo da morte – maior mistério da vida – nunca pareceu tão próximo, tão claro e, de certa forma, confortável. A ideia de que a vida não acaba de fato, de que há alguma coisa do lado de lá, acalmou corações e arrebatou almas vivas. Com as cartas que dizia escrever em nome dos espíritos, Chico não só demonstrava aos olhos dos crentes a continuidade da existência, como oferecia uma forma de comunicação direta com o mundo dos mortos. O fascínio que essa ousada proposição exerce sobre a mente humana, atormentada pela finitude, não pode ser subestimado. Mesmo os gregos, cuja imaginação mitológica parece não ter tido limites, foram incapazes de supor a comunicação com o mundo subterrâneo.

Pensavam que os mortos chegariam à margem do Rio Aqueronte, dariam um óbolo ao barqueiro Caronte, cruzariam para o Hades e nunca mais seriam vistos. Ou ouvidos. Viveriam apenas na memória dos vivos. E esses na dor inconsolável.

Ao atrevimento teológico do espiritismo, Chico somou algo que parece ser uma das características persistentes da cultura brasileira, o sincretismo Ao atrevimento de invocar os mortos, Chico somou algo que parece ser uma das características mais persistentes da grande cultura brasileira: o sincretismo.

Ao adotar o modelo monástico de obediência, pobreza e castidade, ele promoveu a aproximação entre a fé espírita e os preceitos católicos. Com isso, afastou o espiritismo do mundo dos demônios, tranquilizou os adeptos, abafou confrontos com a Igreja e – acima de tudo – criou para o espiritismo um amplo espaço de crescimento em um país profundamente identificado com a mensagem de tolerância e caridade do cristianismo. A intuição e a inteligência de Chico na construção de sua doutrina – e na prática de sua existência – ajudam a explicar o crescimento de seu prestígio mesmo agora, oito anos depois de sua morte. É o que diz a autora da tese Espiritismo à brasileira, a antropóloga Sandra Stoll, da Universidade Federal do Paraná. “A santificação pós-morte de Chico Xavier é uma prática corrente nos meios populares e não briga com a modernidade”, afirma. “As religiões se renovam, incorporando ideias, valores, símbolos e tecnologias e atendem a demandas modernas de diversos modos. O culto a Chico Xavier se insere aí.”

HOMENAGEM
O professor Adaílton Oliveira no túmulo de Chico em Uberaba. Mesmo quem não é espírita, como ele, cultiva a memória do médium.
O interesse pelo médium ultrapassa as fronteiras. Neste ano, um volume de 50 obras suas está sendo lançado em russo. A curiosidade em torno de Chico Xavier está levando aos Estados Unidos um de seus biógrafos, Carlos Antônio Baccelli. Autor do recém-lançado 100 anos de Chico Xavier, ele vai a três cidades realizar workshops sobre o brasileiro. “Querem saber tudo sobre a obra e a vida. O interesse aumentou depois que ele desencarnou”, afirma Baccelli, que também é médium, conviveu com Chico por duas décadas em Uberaba e faz um trabalho social reconhecido na cidade. Palestrantes espíritas brasileiros conhecidos no exterior, como Divaldo Franco e Raul Teixeira, estão pautando seus trabalhos deste ano na vida de Chico Xavier. Uma biografia está sendo lançada na França. O 3º Congresso Espírita Brasileiro, que acontecerá em abril, teve recorde de inscrições de estrangeiros. “Ele é, de fato, uma referência espírita e religiosa em todo o mundo”, afirma César Perri, diretor da FEB.

A repetição das histórias sobre Chico é uma das explicações para a perpetuação de seu mito. Palestrantes internacionais falam de seus feitos.

Amigos e parceiros das cidades em que ele viveu reproduzem dons e “causos” à exaustão. “Você sabia que ele materializava perfume?”, perguntam os amigos. “Ele sempre dizia que morreria num dia de muita alegria e acertou: desencarnou no meio das comemorações pelo pentacampeonato do Brasil na Copa do Mundo”, contam. “Chico sempre dizia: eu não sou nada, sou apenas um Cisco de Deus.

Cisco Xavier”, afirmam. Percebe-se não só os mesmos relatos, mas ainda uma repetição de vocabulário e um ritmo parecido na narrativa. É como se estivesse sendo construída, pela tradição oral e pelos livros – e agora pelos filmes –, uma espécie de Evangelho de Chico Xavier, capaz de levar suas palavras e sua obra para além de sua existência. Nos museus dedicados ao médium, nas duas cidades onde viveu, as lendas de Chico se misturam a seus pertences, muitos mantidos intactos, do jeito que ele deixou. A coleção de chapéus, os ternos, as centenas de fotografias de amigos em porta-retratos e nas paredes. Parecem relíquias sagradas, algo que o espiritismo, na origem, não prevê – assim como regras, dogmas ou qualquer hierarquia religiosa.

EM CENA 
O diretor Daniel Filho entre os atores Nelson Xavier (à esq.) e Ângelo Antônio. Dois momentos da vida de Chico.
A apropriação de preceitos cristãos e a forma como tocou a própria vida, trabalhando pelos mais pobres numa existência sem nenhum luxo, levou Chico Xavier a suplantar a barreira das religiões. Ganhou admiradores de fé católica e teve umbandistas batendo cabeça ao vê-lo. De sua parte, não discriminou ninguém pela crença ou mesmo pela opção sexual. Foi firme contra o aborto, mas enalteceu a invenção da pílula anticoncepcional. Jamais foi unanimidade – e nem é hoje. O pastor Antonio Mesquita, presidente do Conselho de Comunicação da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil diz que os evangélicos condenam o espiritismo. “Evitamos falar sobre esse assunto para que todos possam viver em paz, mas várias passagens na Bíblia mostram que a comunicação entre os homens e os mortos não é possível”, diz.


“Não questionamos seu trabalho social, mas não existe nenhuma prova concreta de que ele realmente fazia comunicação com os mortos”, afirma o cético militante e fundador da organização Ceticismo Aberto, o analista de sistemas Kentaro Mori. Na Igreja Católica, para onde acorrem muitas pessoas que são também espíritas, Chico é visto “com carinho” (sobretudo por sua obra social), mas, ao mesmo tempo, como alguém com quem seria impossível haver conciliação teológica. “Há uma incompatibilidade nevrálgica com os espíritas”, diz o teólogo Fernando Altamyer, professor da PUC de São Paulo. “Eles acreditam em reencarnação.

Os cristãos acreditam em morte e ressurreição. Não há como acomodar essa diferença teórica, embora as práticas possam ser semelhantes.”

O Cinema na onda da vida Pós-morte
Outras estreias sobre espiritismo em 2010

NOSSO LAR 
Baseado no maior best-seller da psicografia de Chico Xavier, que teria sido ditado pelo espírito André Luiz. Foi adaptado para as telas pelo cineasta Wagner Assis e descreve a vida após a morte, numa colônia-cidade no além.
As CARTAS 
O documentário da diretora Cristiana Grumbach mostra pessoas que receberam cartas de parentes mortos psicografadas por Chico Xavier. Nas entrevistas, falam sobre as perdas e o consolo trazido pelas mensagens.


AS MÃES DE CHICO 
“Docudrama” sobre mulheres que receberam cartas de filhos mortos por meio de Chico Xavier. O diretor Glauber Filho quer incluir no enredo assuntos como aborto, suicídio e uso de drogas, à luz do espiritismo.

E A VIDA CONTINUA
Com direção do também ator Paulo Figueiredo, o filme se baseia no romance ditado por André Luiz a Chico Xavier. Já foi peça de sucesso e fala sobre amor e vingança entre personagens do plano espiritual.
A OBRA DE CHICO
Os trabalhos e os livros do médium, em números.

A perpetuação do mito Chico Xavier não só continua após sua morte, como, em alguns aspectos, acontece graças a ela. No meio espírita, acredita-se que ele tenha sido a reencarnação de Allan Kardec. Teria voltado para complementar e popularizar seu primeiro trabalho – e existiria a possibilidade de ele retornar. Em torno disso, aliás, cresce mais uma camada do mistério que reveste sua figura. Chico teria deixado com três pessoas uma espécie de senha para que identificassem possíveis mensagens suas do além.

Seu filho adotivo, o dentista Eurípedes Higino, de 59 anos, é uma delas.

“Recebemos mensagens todas as semanas, mas até hoje não disseram as palavras secretas”, afirma. Pelo menos 50 médiuns brasileiros já disseram receber o espírito de Chico Xavier. Da mesma forma que outros filhos e pais que, por meio de Chico Xavier, acreditaram receber palavras de consolo de seus parentes mortos, Eurípedes anseia por conversar com seu pai. “Tenho muita saudade de nossas conversas ou simplesmente de sua presença. Mas é bom saber que divido isso com milhões de pessoas”, diz. Enquanto essa hora não chega, a ansiedade cresce.

Há quem queira, neste centenário, encontrar não o mito, mas a trajetória do homem Francisco Cândido Xavier. Entre eles, Célia Diniz, presidente do Centro Espírita Luiz Gonzaga, em Pedro Leopoldo. Amparada por voluntários e colaboradores, ela está construindo um memorial que resgata imagens, objetos e histórias não conhecidas. “Não é um trabalho fácil. Aqui, onde ele nasceu, para quem o conheceu ele é apenas o Chico. O rapaz doce, o vizinho, o filho do Seu João”, diz Célia, professora cujo pai foi colega de trabalho do médium na fazenda-modelo. Ao perder dois de seus três filhos, ela foi confortada por Chico e tem crença inabalável no espiritismo. Mas sente mais falta do amigo, a quem ajudou incessantemente no trabalho social, de quem ouvia declarações da mais fina ironia. “Chico era extremamente bem-humorado. Contava piadas, era rápido nos trocadilhos.

Nunca estava sisudo, tinha sempre um leve sorriso, mesmo nas horas mais difíceis”, afirma. O lendário bom humor de Chico Xavier é outra das razões que explicam seu carisma. Mesmo diante da morte ele fazia piadas. Diz-se que uma vez, voando de avião em meio a uma tempestade, ele se pôs a gritar em pânico. Seus acompanhantes, incrédulos, perguntaram se ele, entre todas as pessoas do mundo, tinha medo de morrer. “Medo não tenho, mas também não tenho pressa”, disse o médium.

Ao longo da vida, ele foi muitas vezes desacreditado em relação a seus feitos mediúnicos. Só não se pode duvidar do bem que ele fez. Estima-se que tenha criado ou ajudado a criar pelo menos 2 mil instituições de caridade no Brasil, graças à venda de seus livros e doações de pessoas que o admiravam. Milhões de famintos comeram sua sopa semanal por décadas. Chegou a distribuir 1.000 sopas por dia. Crianças ganharam presentes, jovens foram capacitados profissionalmente. Seus centros tinham filas que dobravam quarteirões. “Ele foi o verdadeiro Fome Zero. Mas o amor dele era o maior alimento que as pessoas poderiam ter”, diz Neuza de Assis, de 62 anos, grande amiga e colaboradora em Uberaba. No chamado Abacateiro, uma casa da periferia da cidade que ele usava como base para a distribuição de alimentos, Neuza relembra a felicidade das pessoas que trabalhavam com ele. “Chico mudou a vida de todo mundo, de quem recebia e de quem dava”, afirma.

Roteirista de Chico Xavier – O filme, Marcos Bernstein, que também escreveu o premiado Central do Brasil, diz que esse foi seu trabalho mais difícil. “Como fazer uma adaptação, de tempo limitado, sobre uma vida tão longa e tão rica? O que privilegiar? Acabamos centrando no ser humano”, diz. Ao mergulhar em sua história, Bernstein afirma ter descoberto um homem que soube, mais do que falar com os mortos, se comunicar de verdade com os vivos. “Ele soube dar paz às pessoas”, afirma. A polêmica não foi deixada de lado. No filme, um dos pontos centrais é a história da carta escrita por Chico que serviu de prova de defesa num caso de assassinato. 

Em 1976, o jovem Maurício Garcez, de 15 anos, morreu com um tiro disparado pelo amigo José Divino Nunes, de 18. Chico escreveu uma carta, que teria sido ditada pelo espírito do morto, afirmando que havia sido um acidente, uma brincadeira – exatamente como afirmava o réu. Diante dos detalhes apresentados e da semelhança da assinatura, o juiz proferiu a sentença absolvendo José Divino. O caso já foi mostrado de forma dramatúrgica em 2004 no extinto programa Linha direta, da TV Globo – e bateu recordes de audiência. Agora, nesse longa-metragem, Christiane Torloni e Tony Ramos vivem os pais do rapaz morto, com seu sofrimento e suas dúvidas sobre o fenômeno.

Daniel Sottomaior, presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, é um dos que criticam veementemente esse episódio. “Lamento que esse tipo de mentalidade tenha penetrado o Estado brasileiro”, afirma. “Cartas psicografadas como prova judicial solapam a base da democracia moderna, que é a separação entre Estado e religião. É muito grave.” Marcel Souto Maior, autor da biografia mais vendida de Chico Xavier, que serviu de base para a produção do filme, garante que discordâncias como essa não foram empurradas para baixo do tapete. “O filme tem polêmica, confronto. Não endeusa Chico. Não é chapa branca”, afirma.

Chico Xavier, contam amigos, costumava dizer que duas coisas o constrangiam: espírito obsessor (que se ocupa de causar transtornos entre os vivos) e jornalista. Não era à toa. Na primeira fase de sua vida, foi ferrenhamente perseguido por repórteres cujo objetivo era desmascará-lo.

Em 1935, Clementino de Alencar, de O Globo, foi a Pedro Leopoldo ver de perto o rapaz franzino, já doente do pulmão e meio cego pela catarata, cuja mão, diziam, era controlada pelos espíritos, dando forma a poesia e prosa de primeira. Fez testes e questionários. Em sua reportagem, depois de meses na cidade, contou que obteve respostas de economia e política, algumas em inglês, que teriam sido sopradas pelos espíritos ao rapaz. Foi embora se dizendo ex-cético, mas perdeu credibilidade diante dos colegas de profissão.

Em 1944, David Nasser, da revista O Cruzeiro, também esteve na cidadezinha. Depois de se passar por repórter estrangeiro para obter uma entrevista do já traumatizado Chico, deixou um dos melhores textos sobre ele na reportagem “Chico Xavier, detetive do além”. “Não nos interessa, embora possa parecer estranho, o médium Chico Xavier, mas sua vida. Seus trabalhos psicografados – ou não psicografados – já foram assuntos de milhares de histórias”, escreveu. “Se são reais ou forjadas, decidam os cientistas. Se ele é inocente ou culpado, dirão os juízes. Mas se ele é casto, instruído, bondoso, calmo, diremos nós. Porque não somos detetives do além.” Quase 70 anos depois, a lógica de Nasser pode ser adaptada. Se Chico Xavier falava com os mortos ou não, é uma questão de fé. O fato que interessa mostrar, entender e explicar é a força do homem comum que se tornou um mito brasileiro.

REVISTA “ÉPOCA” – Edição 615 – 27/02/2010 
“Chico Xavier e a Alma do Brasil 
Por: Martha Mendonça, de Pedro Leopoldo e Uberaba. 
Com Leopoldo Mateus, Mauricio Meireles.
Imagem do Próprio Artigo da Revista
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